Rota 21
Nunca deletei do meu arquivo de recordações, os melhore momentos
daquelas noites frisadas de inverno no estado de New Jersey, quando eu adorava ouvir
no silencio do meu quarto um som incrivelmente melodioso. Era o som do trem do
metrô parando nas estações paralela a rodovia da rota 21, há poucas quadras de minha casa.
Ele vinha de longe, todo místico e exuberante rompendo a noite em cima de
uma plataforma de ferro muito alta, onde jaziam postes de luzes ofuscadas pela
neblina da neve que caia suavemente.
Aquele som, ecoando entre as brisas geladas da solidão escura, vinham como camadas
de música imperceptível a serem decodificadas e desfrutadas num contexto poético.
Sua chegada suave no subway contrastava com o fundo ritimado de dezenas de rodas
freando lenta e calculadamente.
Parecia a galopagem cadenciada de uma tropa enorme de cavalos de aço rasgando
a paisagem urbana engolfada na noite.
Cada vez que isso acontecia eu ficava bem concentrado com a sensacao única
de não querer perder nenhuma fração do espetáculo. Em meu leito eu começava
absorver avidamente a quebra desse silencio embebido de expectativas que não durariam
mais que cinco minutos.
Meus sentidos eram então capturados pela imagem orquestrada da
harmonia nostálgica que fluía desse efeito sonoro ritimado, produzido pelo atritar
de ferro com ferro, soprar do vento, nevoeiro e alguma voz humana..
Era uma transferência espaço temporal de presente e passado, de real
e imaginário totalmente sincronizados. Um fenômeno do sentimento
que me transportava simultaneamente para uma outra viagem. A viagem no trem da
memória. Lembranças etéreas subtraídas da coreografia abstrata do passado
ativado pelas saudades. Saudades imortalizadas que esse fenômeno faz reviver!
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