A um Deus pouco divino …

Quero que nunca mais desponte o dia
Em lugar nenhum do mundo, pra que eu
Durma desperto, dividido entre o que conheço
E o que lembro e o sonho intimo, profundo,
Divino de ser tudo quanto a minha vista vê e
Reconhece como sendo o que existe, tudo quanto
Há e em mim mora, pois de Deus não sei nada,
Quero que nunca mais desponte o dia,
Enquanto eu viro outro mundo em roda na procura
Da cura pra este de que se esqueceu um Deus
Pouco divino, entre Ele e eu não há concílio
Moral ou o que afirmam ter sido, a julgar
Pla ausência de fé, nem é lei nem dá prisão,
Tudo “coisas” só, o resto são crenças entre Tu,
Nós e o mundo lá fora, já nem sei se quero partir
Ou chegar, pensar e sentir são opiniões diversas,
Nada mais que rostos de trinta mil máscaras,
Sinal que é fácil trocar palavas por ensejos,
-Gestos são oposição de polegares, expressões
Ventrículas tal como o bocejar barroco
De um retábulo não longe nem perto, em
Moscavide, é como me sinto, ignorado em
Ponto cruz, deserdado de magia na iris,
Num mundo onde salva tem gosto a malva,
Mas ainda com raiva d’fogo uso a palavra,
Uso a palavra magia quando olho
Nos olhos Teus, sendo eles azuis d’mar
Invento o uso, quando não sei de cor as cores
Do arco-íris, do vento acariciando a cevada,
O sentido e a boca me envelheceram, sim,
-De tantas palavras gastas, nem todas
Com gosto a salva e a sim, e a nada …
A um Deus pouco divino …
http://joel-matos.blogspot.com
Joel Matos (Março 2020)
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