NO TERCEIRO ATO
A cortina fechou, a plateia dormiu, a trilha sonora emudeceu.
O palhaço ficou sério, com rosto triste e ali calado, quieto e sozinho, ele chorou sem ter com quem dividir seu sentimento de perda da alegria que se esvaio do seu âmago.
Ninguém viu suas lágrimas e nem as luzes notaram que as cortinas desceram apagando os sorrisos.
No silêncio ESQUECIDO e no negror ali exposto, somente o palhaço consegue enxergar a cuchia, o picadeiro, as bancadas agora tão sem vida pois o riso também não existe mais.
Ele enxuga suas lágrimas, inclina a cabeça de encontro ao seu peito, numa posição de meditação de monge budista e com os olhos do Espírito começa ver claridade e imagens se mexendo, as luzes ofuscante, a cortina aberta, ouve sons de aplausos, a essência da música começa despejar ali as notas musicais que dançam bailando num pentagrama orquestrado de sonhos.
Casa cheia, plateia animada, cores, luzes, sons, risos.
O palhaço volta sonhar, levita e deixa o seu corpo na mesma posição e sai voando percorrendo os espaços daquele espetáculo grandioso visitando os camarins, sendo visto e aplaudido no Primeiro, segundo e terceiro atos.
"O palhaço só tem utilidade, quando faz a sua plateia sorrir"
Que bom que ele pode proporcionar risos e ver todos felizes.
Sua alma flutuante está regozijante, leve livre, sentindo-se útil outra vez.
Ao passar por todos os lugares, pela portaria, bilheteria,adentra de novo e sente ser puxado para onde está o seu corpo
Ele insiste em continuar flutuando, mas há um freio que lhe prende e lentamente vai diminuindo o seu vôo e ele se sente atraído para o chão, para que ocupasse de novo o seu corpo que ali estava em concentrada ação espiritual.
Volta a encarnar, adentra ao corpo e de súbito abre os seus olhos agora lacrimejados colhido por imensa tristeza e percebe que as luzes se apagam, que a cortina fechou, a plateia dormiu, a trilha sonora emudeceu, o palhaço ficou sério, com seu rosto triste, e ali calado, sem que houvesse ninguém para conforta-lo, morreu tão triste, calado e sozinho.
Carlos Silva.
23 de junho de 2020
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