eu nasci em 1993. desde então, vivo em estado de calamidade pública. nunca teve leito pra mim, minha mãe nem pôde me amamentar. tem tempos que me falta o ar, que me ardem as têmporas. em pé no vagão lotado, eu nunca consegui respirar. nada de novo há no rugir das tempestades, uma doença realmente infectou todos os povos e isso aconteceu mais de quinhentos anos atrás, foi aí que tudo mudou. Você foi diagnosticado com Capitalismus Modernus-15, a doença do egoísmo, da acumulação do capital, da mais valia enchendo o bolso do patrão, das jornadas de trabalho desumanas, das várias formas de escravidão. a palavra já não aguenta mais caber. em busca de ar, se joga do abismo. passo dado, o futuro também é torto, tão torto quanto o mar e a História contada nos livros. se fome fosse vírus, quando seriam adotadas as tais “medidas excepcionais à racionalização dos serviços públicos”? ou essas são medidas emergenciais para a manutenção do status quo? o mínimo para manter a bolha e “descartar o excedente”. Me vejo só, virando verbo passo o tempo e já não tem nenhum abrigo. Conto os mortos, conto os dias, penso se ainda existo.
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