Era de ser pedreiro
seu destino mais urgente
e alinhar pedras e sonhos
no seu mister de vivente
 
era de ser partido
seu grito mais pungente
e engolir os soluços
sua tarefa latente
 
era de ser preciso
uma fome mais estreita
pra consumir outra fome
da morte que lhe isenta
 
era de ser tão fecundo
no exercício das fêmeas
pra vingar em outras carnes
o futuro que lhe convenha
 
era de ser maltratado
pelas rodas do engenho
pra descobrir no seu braço
melhor mister e empenho
 
era de ser emudecido
pelo coice do chicote
pra descobrir a largura
do que a palavra pode
 
era de ser humilhado
nos desvãos de cada dia
pra pescar no fundo de si
o que seja a alegria
 
era de ser entristecido
pela pouquidão do riso
que invertia seu canto
no sentido do martírio
 
era de ser sempre magro
habeas corpus da fome
gravado em poucas costelas
e num minguado nome
 
era de ser explorado
em cada palmo da vida
somando os metros de morte
chorando o peso dos quilos
 
era de ser comprimido
o seu trabalho tão largo
que até do suor se tire
algum lucro ou trocado
 
era de ver-se infinito
embora tão limitado
no revés do ser ofício
na produção encantado
 
era de ver-se gritando
no coice da passeata
enrolado em cada bandeira
numa intimidade inata
 
era de ver-se em grades
molde brutal do desfuturo
pungida a cada do povo
escrita em todos os muros
 
era de ver-se aos seus
cerzidos nos vãos das salas
traçando o gosto da vida
rompendo a face da alma
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