Das infantes vidas em rumo aberto

a vida de Severino

tinha uns nós engraçados

quanto mais lhe apertava a angústia
mais lhe afrouxava a gravata

é certo que não tinha Londres

para remoer suas tristezas

ao som intransponível

e fluido das metrópoles

mas, no fundo de si,

guardava uma noite inteira

que bem poderia caber em Londres
com um quê de brasileira.

A alma que levava

presa no vão do cérebro

era dessas comuns

que pastam a Europa

e se empanturram da América.

Ah se lhe coubera

um futuro exato

dentro dos pés

no meio dos passos!

Mas o futuro

sorria complexo

travoso e irremediável

o gosto da liberdade.

Os cachos da mulher

que seu amor vestia

cheiravam a rosa

embrulhada nos abraços

corroendo o dia

mas o infinito

teimava em não lhe vir à mão

para que o despejasse

incólume e transparente

sobre seu corpo de flor

ou de mulher e gente.

Dos olhos de seus irmãos

como um concreto estranho
pendiam grossas lágrimas

que a custo desabavam

e se partiam amarelecidas

na espinha bruta das calçadas.
Tinha uns nós engraçados

a vida de Severino

quanto mais vivia o homem
queria ser menino

e empinar os sonhos

como uma pipa urgente

e não tão murchos

como os olhos do seu povo
queria coser os risos

numa imensa colcha

e deitá-la nas costas

da gente brasileira.

Queria ter um dia guardado
em cada bolso da camisa

pra jogá-los no meio das noites
que se teimam infinitas.

De cada nó

partia uma ponta do corpo

e eram nós desatáveis

apesar de muito esforço

tinha a largura tanta

do gosto da injustiça

costurado ao chão do mundo
como uma telúrica intriga.
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