Solilóquio
Camarada que respira,
(Caso algum aqui ainda exista)
Eu não espero que resista.
Eu também não o resisti.
Joguei-me àquela pira,
Larguei a vida que vivi.
Me vi preso, sufocado
Numa carcaça de aço,
Inconfundível mormaço
Que suportei até o fim.
Magro, de peito calado,
Vi um anjo serafim.
Implorei-lhe um caminho,
Uma saída sem dor,
O que pudesse dispor
Para acabar meu sofrer.
Duma garrafa de vinho,
Vi eu então escorrer
O escuro manjar ébrio,
Sumo do puro torpor.
Dar-me-ia alguma cor,
Uma sonhada alegria,
Aliviar este opróbrio,
Estancar essa sangria.
Ó mas quão néscio fui eu!
No vicejar do Arrebol,
No cantar de um Rouxinol
E nos mais doces licores,
Até nos cantos de Orfeu
Orvalham aos montes dores!
E atrás do falso conforto,
Reinou o tédio massacrante
A guiar-me qual Caronte
Pelo Estige até os mortos.
Para cada caminho torto,
Mais mil caminhos tortos!
E venceu-me todo dia,
Sorvido na imensidão
Vil, de Cerúlea abjeção.
Fez-me louco e langoroso,
Em infinda romaria
Neste rincão horroroso.
Até que o ferro estalou.
De meus grilhões fiz eu a pira,
De meu choro, fiz minha ira.
Para cada crepitar,
Um dia que o tédio calou
E um dia que não vai calar.
Foi no crestar desse corpo
Que vi-me anistiado,
De alma livre, enlevado,
Ao nada, em trilho eterno
Queimando, subindo ao topo,
O topo altivo do inferno.
(Caso algum aqui ainda exista)
Eu não espero que resista.
Eu também não o resisti.
Joguei-me àquela pira,
Larguei a vida que vivi.
Me vi preso, sufocado
Numa carcaça de aço,
Inconfundível mormaço
Que suportei até o fim.
Magro, de peito calado,
Vi um anjo serafim.
Implorei-lhe um caminho,
Uma saída sem dor,
O que pudesse dispor
Para acabar meu sofrer.
Duma garrafa de vinho,
Vi eu então escorrer
O escuro manjar ébrio,
Sumo do puro torpor.
Dar-me-ia alguma cor,
Uma sonhada alegria,
Aliviar este opróbrio,
Estancar essa sangria.
Ó mas quão néscio fui eu!
No vicejar do Arrebol,
No cantar de um Rouxinol
E nos mais doces licores,
Até nos cantos de Orfeu
Orvalham aos montes dores!
E atrás do falso conforto,
Reinou o tédio massacrante
A guiar-me qual Caronte
Pelo Estige até os mortos.
Para cada caminho torto,
Mais mil caminhos tortos!
E venceu-me todo dia,
Sorvido na imensidão
Vil, de Cerúlea abjeção.
Fez-me louco e langoroso,
Em infinda romaria
Neste rincão horroroso.
Até que o ferro estalou.
De meus grilhões fiz eu a pira,
De meu choro, fiz minha ira.
Para cada crepitar,
Um dia que o tédio calou
E um dia que não vai calar.
Foi no crestar desse corpo
Que vi-me anistiado,
De alma livre, enlevado,
Ao nada, em trilho eterno
Queimando, subindo ao topo,
O topo altivo do inferno.
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