Sonho morto
Com as mãos trêmulas tira da prateleira a xícara e o pires de porcelana.
Com as pernas do passado caminha até a mesa e, sem fazer ruído, pousa o pires, a xícara e a sua solidão.
Retorna à prateleira com os olhos vazios e retira o pote de café. Abre uma das gavetas onde dorme uma colher de aço que sobreviverá ao tempo.
Caminha até a mesa como um relógio que anda para trás.
Abre o pote de café e afunda nele a colher, mas se dá conta de que se esqueceu do bule, do filtro e da garrafa térmica.
Deixa a colher mergulhada no pó como uma pá cravada num cemitério.
Abre outra gaveta e seus dedos se movem como se tateassem algodão. Tira de lá o filtro de pano encardido de memórias. Abre a portinha superior do armário onde guarda o bule e a garrafa térmica.
Coloca o conjunto sobre a pia ao lado do fogão.
Encaixa o coador de pano e faz uma pausa para respirar.
Busca o pote de café e o coloca ao lado do filtro. Retira dele três colheres rasas para preencher o fundo do coador.
Enche o bule até a metade com a água da torneira.
Acende o fogão com um fósforo porque não gosta do ruído do funcionamento elétrico.
Deposita o bule sobre as chamas e observa a água tão calma como sua rotina sem palavras.
De repente um facho de sol raspa em sua janela e distrai sua atenção.
Observa o friso de luz que parece vasculhar sua intimidade, sua casa, seu resto de madrugada.
Entrevista o silêncio sem querer respostas. Que seja apenas o que tem sido, ora um confidente ora um vilão.
Borbulhas da fervura da água reclamam sua atenção.
Apaga o fogo e observa a água acalmar-se debaixo do vapor que desaparece no ar como tantas outras coisas.
Despeja a água no filtro sem nenhuma pressa, como quem derrama saudade e dor.
Vê o café atravessando o filtro feito um fiapo de escuridão solitária que se mistura nas espumas do tempo.
Conclui que cada dia é uma lâmina que disseca ilusões.
O sol faz mais força para invadir.
Suas mãos erguem a garrafa térmica como um troféu aposentado.
Caminha na frente da própria sombra em direção à mesa.
Apoia seu corpo com uma das mãos espalmada sobre aquela fração da eternidade, e senta-se ao som do próprio suspiro.
Olha sua xícara vazia e a cadeira vazia do outro lado.
O aroma do café lhe sussurra uma lembrança.
Despeja o café na xícara como quem enxerga um sonho morto.
Pega na xícara com a mesma lentidão dos dias anteriores. Toma um gole na esperança de que o futuro realize seu último segredo.
Com as pernas do passado caminha até a mesa e, sem fazer ruído, pousa o pires, a xícara e a sua solidão.
Retorna à prateleira com os olhos vazios e retira o pote de café. Abre uma das gavetas onde dorme uma colher de aço que sobreviverá ao tempo.
Caminha até a mesa como um relógio que anda para trás.
Abre o pote de café e afunda nele a colher, mas se dá conta de que se esqueceu do bule, do filtro e da garrafa térmica.
Deixa a colher mergulhada no pó como uma pá cravada num cemitério.
Abre outra gaveta e seus dedos se movem como se tateassem algodão. Tira de lá o filtro de pano encardido de memórias. Abre a portinha superior do armário onde guarda o bule e a garrafa térmica.
Coloca o conjunto sobre a pia ao lado do fogão.
Encaixa o coador de pano e faz uma pausa para respirar.
Busca o pote de café e o coloca ao lado do filtro. Retira dele três colheres rasas para preencher o fundo do coador.
Enche o bule até a metade com a água da torneira.
Acende o fogão com um fósforo porque não gosta do ruído do funcionamento elétrico.
Deposita o bule sobre as chamas e observa a água tão calma como sua rotina sem palavras.
De repente um facho de sol raspa em sua janela e distrai sua atenção.
Observa o friso de luz que parece vasculhar sua intimidade, sua casa, seu resto de madrugada.
Entrevista o silêncio sem querer respostas. Que seja apenas o que tem sido, ora um confidente ora um vilão.
Borbulhas da fervura da água reclamam sua atenção.
Apaga o fogo e observa a água acalmar-se debaixo do vapor que desaparece no ar como tantas outras coisas.
Despeja a água no filtro sem nenhuma pressa, como quem derrama saudade e dor.
Vê o café atravessando o filtro feito um fiapo de escuridão solitária que se mistura nas espumas do tempo.
Conclui que cada dia é uma lâmina que disseca ilusões.
O sol faz mais força para invadir.
Suas mãos erguem a garrafa térmica como um troféu aposentado.
Caminha na frente da própria sombra em direção à mesa.
Apoia seu corpo com uma das mãos espalmada sobre aquela fração da eternidade, e senta-se ao som do próprio suspiro.
Olha sua xícara vazia e a cadeira vazia do outro lado.
O aroma do café lhe sussurra uma lembrança.
Despeja o café na xícara como quem enxerga um sonho morto.
Pega na xícara com a mesma lentidão dos dias anteriores. Toma um gole na esperança de que o futuro realize seu último segredo.
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