SOBRE SER APENAS O QUE NÃO SE PODE NÃO SER
Com a alma inerte e a pulsão de criação atrofiada, passam-se os dias como meros efeitos necessários uns dos outros, como mera expressão da causalidade intrínseca ao comportamento dos inanimados. O que se sucede dos meus atos me é alheio e distante, e o que me atinge de fora me toca com absoluta suavidade. Não me queixo, contudo; apenas relato a sensação de passarem os dias como fossem horas e as horas como fossem dias. No entanto me abala o, ainda que sonolento, profundo desejo de extrapolar minha condição de estaticidade e sentir as árvores, os pássaros e as pessoas ao vê-las, ter a sensação vívida de que as coisas existem e de que eu existo, e tudo é absurdamente real. Sentir como fosse a primeira vez que, como estranho, embebedo-me com extrema facilidade com a beleza das coisas. Mas penso que não ver a beleza é consequência necessária do hábito necessário de estar aí, a película protetora da existência. Enquanto devaneio sobre uma vida que não tenho e que pretensamente penso ser possível, mais horas e mais dias continuam passando mecânicos e monótonos, e a passagem me faz mais velho. Mais tarde, tantas horas e tantos dias haverão passado, que já não haverá mais tempo para levantar da cama confortável do destino e, morrendo, não haverá sequer arrependimento do fato de que uma vida única e finita, foi vivida como se vive o ato de piscar os olhos ou de mexer os braços, como mera consequência de atos afogados no líquido amargo da necessidade, sem qualquer divindade ou magia que trouxesse a ela algum brilho.
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