O ENTERRO
O ENTERRO
Quatro homens juntos
Do mesmo tamanho
Em silêncio levemente oscilando
Da direita pelo portão vão entrando
Exibindo o carrego
Em lenta dança
Cabeça inclinada para fora
Pé direito o primeiro que avança
Grande caixa de mogno brilhante
Que parece pesada
Sustêm
A direito no ombro apoiada
Uma mão segurando na base
O outro braço esticado tentando abraçá-la por cima
Todos de preto
Pretos fatos sapatos meias pretas gravatas
As camisas em branco gritante
Um rapaz dezassete dezoito aproxima-se
Sai um deles entra ele
Frente esquerda
Marejados os olhos azuis
Brilhando vermelhos
A aflição é flagrante
Na orelha o ouro da argola reluz na manhã
Como a noite ainda distante
São negros os jeans e a t-shirt
Mão direita por cima mão esquerda por baixo agarrado com força
Vai dali em diante
Até onde a sua gente se agrupa
A caixa é pousada junto à cova aberta no chão
Com todos os rostos virados para lá em silêncio e terror
Véus chapéus e óculos de sol
Preto a única cor
Giram todos o olhar para o belo rapaz quando chega
Abraços carícias palmadas nas costas
De uma mulher um sussurro
Bom menino sem rancor nem vingança
Pai é pai afinal
Do rapaz nem sequer um murmúrio
No grupo em que estou
O caixão já chegou
Esperando a vinda do padre junto à campa jazia
Atrás do monte de terra escavada
Uma mulher veio do grupo e sobre ele se lançou
Tentando abraçá-lo em aparente insana agonia
E gritando minha querida menina
Uma voz a meu lado suspirou
É desgosto de mãe
Mãe é mãe afinal
Em vida porém
Torturou a filha sem dó
Abandonada semanas a fio
Era só um bebé
Gatinhava quando foi escorraçada por ela
Que depois lhe escrevia muitas cartas à máquina
Histórias macabras de violência e terror
Só medo desdém e repulsa oferecia
Sem remorso nem compaixão
Muito menos amor
Obrigava-a a visitas penosas que nunca queria
Juntando fel e veneno
Às feridas abertas e à dor
Que agora a matou
Mas está morta e inerte no esquife
Afastar o abraço que a agarra não pode
E mãe é mãe pai é pai
Diz o povo
São palavras que não se dizem em vão
No mesmo momento
Os dois caixões dão entrada nas covas
Ouvem-se corvos grasnar quando a terra lhes toca
Num país em que os corvos são raros
Fumam uns fungam outros
Um bebé solta um grito à distância
E o dia de repente enoitece
Os estorninhos em bando
Tomam conta do espaço infinito
Embrulhando o azul nos folhos do seu negro véu
Alargando-se a hoste e estreitando de novo
Abrindo-se em mirífica flor
De seguida transforma-se em seta
Dirigida ao além
Perseguindo um enorme falcão predador
Que expulsa do céu
E ao longe uma voz mal se ouve
Este enterro não o esquece ninguém
Quatro homens juntos
Do mesmo tamanho
Em silêncio levemente oscilando
Da direita pelo portão vão entrando
Exibindo o carrego
Em lenta dança
Cabeça inclinada para fora
Pé direito o primeiro que avança
Grande caixa de mogno brilhante
Que parece pesada
Sustêm
A direito no ombro apoiada
Uma mão segurando na base
O outro braço esticado tentando abraçá-la por cima
Todos de preto
Pretos fatos sapatos meias pretas gravatas
As camisas em branco gritante
Um rapaz dezassete dezoito aproxima-se
Sai um deles entra ele
Frente esquerda
Marejados os olhos azuis
Brilhando vermelhos
A aflição é flagrante
Na orelha o ouro da argola reluz na manhã
Como a noite ainda distante
São negros os jeans e a t-shirt
Mão direita por cima mão esquerda por baixo agarrado com força
Vai dali em diante
Até onde a sua gente se agrupa
A caixa é pousada junto à cova aberta no chão
Com todos os rostos virados para lá em silêncio e terror
Véus chapéus e óculos de sol
Preto a única cor
Giram todos o olhar para o belo rapaz quando chega
Abraços carícias palmadas nas costas
De uma mulher um sussurro
Bom menino sem rancor nem vingança
Pai é pai afinal
Do rapaz nem sequer um murmúrio
No grupo em que estou
O caixão já chegou
Esperando a vinda do padre junto à campa jazia
Atrás do monte de terra escavada
Uma mulher veio do grupo e sobre ele se lançou
Tentando abraçá-lo em aparente insana agonia
E gritando minha querida menina
Uma voz a meu lado suspirou
É desgosto de mãe
Mãe é mãe afinal
Em vida porém
Torturou a filha sem dó
Abandonada semanas a fio
Era só um bebé
Gatinhava quando foi escorraçada por ela
Que depois lhe escrevia muitas cartas à máquina
Histórias macabras de violência e terror
Só medo desdém e repulsa oferecia
Sem remorso nem compaixão
Muito menos amor
Obrigava-a a visitas penosas que nunca queria
Juntando fel e veneno
Às feridas abertas e à dor
Que agora a matou
Mas está morta e inerte no esquife
Afastar o abraço que a agarra não pode
E mãe é mãe pai é pai
Diz o povo
São palavras que não se dizem em vão
No mesmo momento
Os dois caixões dão entrada nas covas
Ouvem-se corvos grasnar quando a terra lhes toca
Num país em que os corvos são raros
Fumam uns fungam outros
Um bebé solta um grito à distância
E o dia de repente enoitece
Os estorninhos em bando
Tomam conta do espaço infinito
Embrulhando o azul nos folhos do seu negro véu
Alargando-se a hoste e estreitando de novo
Abrindo-se em mirífica flor
De seguida transforma-se em seta
Dirigida ao além
Perseguindo um enorme falcão predador
Que expulsa do céu
E ao longe uma voz mal se ouve
Este enterro não o esquece ninguém
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