Brasilidade

Onde estou?

O formalismo aturde-me, sequestra-me

Eis que, ao me formar, o europeu deforma-me

Olhos que não são meus numa terra que é minha

A falar do meu Brasil

Fosse eu o Oswald de Andrade

Botaria Pero Vaz na cadeia

Se aqui ele voltasse

 

Entre tantas idas e desencontros

Sigo deformando-me na esperança de me formar

Eis que meu espelho quebrado

Traz lembrança de um passado sem me identificar

E nesse nacionalismo ufânico

Tento me construir numa ilusória realidade

Os sabiás e as palmeiras foram o meu fascínio

Sigo a me deformar

 

Grito ideais de liberdade, ecoados na Revolução Francesa

Proclamo a liberdade dos escravos

Para projetá-lo em situação mais degradante

Meu desejo é inglês com vestes brasileiras

Mas pretendo uma literatura de exportação sob a ótica de importar

 

Pelo direito à literatura como fundamental, previsto na Constituição

Pelo direito ao direito

Pela revolução

Pela história do povo contada pelo povo

 

Mesmo em vaias e gritos

Eu lutei influenciado pelas vanguardas

E o europeu forma-me e deforma-me

Mas, dessa vez, são as cores do Brasil

Seria mesmo uma literatura de exportação?

 

Juca Pirama foi até o homem branco

Após ter visto o negro zonzo sair da fornalha

Macunaíma convocou todos os poetas, sem exceção

Os imortalizados pelo cânone

E aqueles cuja conveniência não deixou imortalizar

Tetê Quizá Quizá Quecê

E fizemos o carnaval

 

Alexandra Matos

15/12/2018, às 9h00

Santo Antônio de Jesus
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