SEIS PALAVRINHAS MÁGICAS

QUANDO NO ALTO DA PALMEIRA
O PICA-PAU RESOLVEU LHE FURAR A MADEIRA
INDIGNADO COM A BARULHEIRA
GRITOU O COQUEIRO: AH, NÃO!

Desde o mês passado, quando a cidade decretou período de alta temporada – e olha que estamos somente nos primeiros dias de um novo ano – tenho ouvido cantar mais de perto meia dúzia de palavras as quais não posso transcrevê-las aqui, pois se assim o fizesse por certo bloqueariam de imediato esta minha conta. São palavras que complementam as frases (ou versos, ou estrofes) do ‘vai novinho’ e ‘vai novinha’, repetidas dezenas de vezes seguidas a incríveis turbinados decibéis.

Bits de um mesmo ritmo, as pancadas fortes e os gritos por vezes argutos, por vezes mugidos, berrados, grunhidos, solavancam o tradicional silêncio pós-almoço de um dia de domingo que tanto almejamos e merecemos. Ou ecoam madrugada afora cortando o sono, interrompendo sonhos, maculando o breu da noite deste sessentão insone.
Mudam as mãos que seguram os microfones, trocam as bocas que os assopram desregradas, trocam os endereços, mas as seis ou sete palavrinhas proibidonas de serem transcritas aqui prevalecem altivas, soberanas. Mudam as ‘bocas de som’, mas os streamings são os mesmos recebidos ainda no 4G e transmitidos via bluetooth para nossos ouvidos feito penicos. Quanto mais alto o som, melhor. Sinal de potência, de poder, dominância ou predominância da situação, do espaço conquistado, do objetivo alcançado. Quanto mais explicita a palavra, mais realismo à descrição ‘poética’ do canto nada orfeônico que reverbera nestes novos tempos, transformadas em estranhas coreografias no mínimo toscas senão putíferas.

Neste meio dia, saio na varanda. No térreo à beira da piscina, quatro marmanjos sentados na borda com as canelas na agua, seguram copos com whisky e energético certamente quase sem gelo, rindo do nada, cantarolando as menos de dez palavrinhas zurradas provindas do som. Pouco à frente e mais perto das JBLs, três novinhas também rindo do nada e cuspindo as mesmas frases dos seus ídolos MCs, mantém os celulares conectados ao vivo nas redes sociais, mostrando às amigas, ou amigos, ou à mãe lá longe num lugar que talvez nem exista, a façanha daquele momento tão fútil e desprezível quanto as batidas daquele indecoroso arremedo de funk.

Meu pai, convivendo com os altos sons dada a surdez que severamente lhe comprometera o entendimento, caso ainda estivesse por aqui certamente no entremeio da barulheira trepidante perguntaria: 'quem deixou a rabanada cair no chão?'

Eu, que um dia já achei que ‘na boquinha da garrafa’ e ‘eguinha pocotó’ fossem o fim do mundo, tenho agora legítimas provas da reencarnação do ócio. Creio que não esteja eu mais tão novinho e, portanto, deveria ter os ouvidos mais íntimos das seis mágicas palavrinhas... Mas todos e cada um e a seu modo, desejamos felicidade em 2022, mesmo que não venha por meio de uma sinfonia de silêncios e sons esperados. Feliz Ano Novo!


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