NO ESTALAR DAS NUVENS CINZAS
A chuva afoga as calçadas
e esgotos regurgitam seus excessos
lavando o pecado dos homens
Na água que o céu devolve
casais se desabraçam
e correm
à busca dos abrigos dos cimentos
e das lajes -
um cão tenta espaço no meio das pernas
pelos sapatos é enxotado
não há lugar para tantos sonhos molhados
No frio o ranger dos ossos velhos
se mistura ao ruído sossegado
dos pingos
enquanto do outro lado da cidade
à margem da vida e dos rios
há os que suplicam misericórdia dos deuses
e o socorro de quem os oprimem
No trânsito dos sinais parados
ouço no carro uma música morta
no cemitério dos meus tantos passados
Nas chuvas de ontem
galochas pisam poças e ensopados
brincando felizes por não haver aula
Joaquim Cesário de Mello
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