Doutores da agonia 🔵
Não há viagem de ônibus que seja tão entediante que não possa piorar. Pois foi assim que, num ponto lotado, embarcou um sujeito pretendendo alegrar parte do trajeto.
Avaliando que resultado ele poderia obter, calculei o grau de caracterização do ator: maquiagem mal-feita (borrada) e avental surrado e encardido. A composição toda era muito triste. O cabelo desgrenhado era a única coisa que gerava uma graça involuntária. O palhaço triste pretendia ser um “doutor da alegria” genérico, mas estava muito claro que o infeliz precisava de ajuda, não o contrário. Nem a maquiagem escondeu sua angústia. Infelizmente, sua atormentada realidade apenas se somou à de outros quando ele embarcou naquele coletivo.
O número, ou a tentativa de alegrar alguém, foi constrangedor, o que só tornava o ambiente pior. Pensei: palhaço, você não é engraçado. Só não vocalizei minha conclusão por medo que o pretenso parlapatão fosse linchado. Provavelmente, isso só tornaria as coisas piores e me causaria dó e arrependimento.
Sua vulnerabilidade e risco social revelaram-se completamente, corroborando minhas suspeitas, quando o cara fez um choroso discurso e passou recolhendo algumas moedas. Óbvio que todos perceberam que a triste figura recolhia os parcos trocados com a sanha de quem necessitava aplacar a fome.
O palhaço causou um certo burburinho, quebrando a rotina daquele povo. Esse é um dos objetivos de todo artista; entretanto o saltimbanco, por onde passava, deixava um rastro de fúria e desconforto.
Esse cara deve ter assistido ao filme “Patch Adams” e vislumbrou a solução para seus problemas. Finalmente o pedinte desembarcou, e o intuito do palhaço foi alcançado: o ambiente iluminou-se, os passageiros inclusive esboçaram um sorriso e conversaram alegres. Só não se sabe se o resultado se deu pelo encerramento do suplício ou por saber que há realidades bem piores do que retornar de um dia de trabalho num “busão” lotado.
Avaliando que resultado ele poderia obter, calculei o grau de caracterização do ator: maquiagem mal-feita (borrada) e avental surrado e encardido. A composição toda era muito triste. O cabelo desgrenhado era a única coisa que gerava uma graça involuntária. O palhaço triste pretendia ser um “doutor da alegria” genérico, mas estava muito claro que o infeliz precisava de ajuda, não o contrário. Nem a maquiagem escondeu sua angústia. Infelizmente, sua atormentada realidade apenas se somou à de outros quando ele embarcou naquele coletivo.
O número, ou a tentativa de alegrar alguém, foi constrangedor, o que só tornava o ambiente pior. Pensei: palhaço, você não é engraçado. Só não vocalizei minha conclusão por medo que o pretenso parlapatão fosse linchado. Provavelmente, isso só tornaria as coisas piores e me causaria dó e arrependimento.
Sua vulnerabilidade e risco social revelaram-se completamente, corroborando minhas suspeitas, quando o cara fez um choroso discurso e passou recolhendo algumas moedas. Óbvio que todos perceberam que a triste figura recolhia os parcos trocados com a sanha de quem necessitava aplacar a fome.
O palhaço causou um certo burburinho, quebrando a rotina daquele povo. Esse é um dos objetivos de todo artista; entretanto o saltimbanco, por onde passava, deixava um rastro de fúria e desconforto.
Esse cara deve ter assistido ao filme “Patch Adams” e vislumbrou a solução para seus problemas. Finalmente o pedinte desembarcou, e o intuito do palhaço foi alcançado: o ambiente iluminou-se, os passageiros inclusive esboçaram um sorriso e conversaram alegres. Só não se sabe se o resultado se deu pelo encerramento do suplício ou por saber que há realidades bem piores do que retornar de um dia de trabalho num “busão” lotado.
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