Liguei o carro e saí cantando os pneus. Nunca me esquecerei daquele 7 de julho de 1998. Sem sequer olhar para os lados e às vezes conferindo o retrovisor, reparei que as ruas estavam vazias e as lojas, fechadas. Acelerava fundo, exigindo mais do que aquele “golzinho quadrado” podia oferecer. Nesse ritmo, entrava em pequenas ruas, grandes avenidas, rotatórias, lombadas e intermináveis faróis. Eu até arrisquei, às vezes, a perigosíssima “roleta paulista” porque a cidade estava deserta, apesar de ser terça-feira. De vez em quando, alguns estrondos, ora próximo, ora longe, aumentavam minha ansiedade.
Enfim, cheguei a tempo de assistir à semifinal da Copa do Mundo de 1998 de futebol. Aquele Brasil e Holanda era o pano de fundo perfeito para fazer um pacote de tolices: sair do trabalho mais cedo, gritar palavrões, xingar, beber e, em caso de vitória, dirigir como um maluco bêbado. Nesses dias, fingimos que o Brasil ainda é o “País do Futebol” e que o próximo jogo é a coisa mais importante do mundo. A vida dos integrantes de torcida organizada finalmente parecia ter lógica! O mais sinistro é que o mulherio também entra nessa “vibe”, talvez como uma concessão a essa infantilidade masculina. Aí é um tal de: dá de bico que o jogo é de taça, pra cima deles e vaaaii, Brasil. Quando sai um gol, não há coronavírus que impeça um abraço, tampouco uma aglomeração.
O difícil êxito nos pênaltis gerou maior confiança em alguém que sugeriu a estupidez de saírmos para comemorar. Estávamos bêbados e felizes, achando a ideia genial e providenciando a insanidade “juvenil”. Entupimos o automóvel com 8 pessoas e fomos desfilar naquela “Marquês de Sapucaí” do Fim do Mundo.
Aquilo era uma experiência antropológica. Vendo as pessoas comemorando nos carros, nas ruas, praças, casas e bares exacerbou a minha alegria de plástico. Eu realmente gostaria que aquela euforia fosse porque o PIB fechou com dois dígitos, o índice Bovespa bateu em 200 mil pontos ou fôssemos os primeiros em IDH... De repente, uma buzina interrompeu meu devaneio e voltei a gritar: Brasil! Braaasssiiilll!
No centro da cidade, a bexiga me lembrou que a cerveja é diurética. Até que aguentei bastante, deu tempo de uns “brasilinos” obstruírem minha visão com bandeiras no para-brisa e gritos ensandecidos. Quando não aguentava mais, saí do carro para urinar. Foi como levantar uma telha cheia de baratas. A espera por um banheiro era coletiva, porque, quando eu saí, saíram outros, cada um em uma direção, correndo meio curvado. Não teve jeito, uma das principais ruas do centro de Guarulhos me ajudou sem importar o endereço profanado. Descobri que havia chegado ao fundo do poço quando um motorista de ônibus anunciou o meu ato.
Eu havia ido longe demais, aquilo era o suficiente. Uma voz sensata e, claro, feminina sugeriu sensatamente: vamos embora. Todos concordaram. O meu parâmetro é quando começo a me sentir um estrangeiro em meu próprio país.
Nos outros dias: trabalho, boletos e, de vez em quando, uma cervejinha. Mas a “Pátria de Chuteiras” só durante o jogo.
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