🔵 Luz, câmera, ação
Parecia que finalmente havia chegado a hora. A equipe de filmagem era obrigada a me focalizar, bem como a iluminação revelar a minha atuação, em rede nacional. Bastava eu ficar atento e, quando anunciasse a matéria, liberasse o “play/rec”. Só isso.
Depois, com a gravação feita, coloquei a fita VHS no videocassete 4 cabeças. A cópia não estava muito boa, mas o registro histórico já valia a pena, ficaria para a posteridade.
O resultado não foi como esperei. Inicialmente, numa mistura de euforia e expectativa, quis exibir o material, achando que portava uma relíquia sagrada. Segundos depois, decepção, vergonha e constrangimento. Conformado com a ausência de registro, apontei o meu braço que surgiu num canto da tela da televisão. Gesticulando, avisei, chamando a atenção de todos: “Sou eu, sou eu”.
Sim, apareci no extinto noticiário policial do SBT, Aqui Agora. Estilo “espreme que sai sangue”, o programa vespertino policialesco era muito pior que Brasil Urgente e Cidade Alerta. Para imaginar o nível, basta contextualizar que o telejornal, de gosto duvidoso, foi exibido no canal do Silvio Santos no início dos anos 90 — época do “vale tudo” pela audiência, sem o politicamente correto para frear a apelação. O ‘Aqui Agora’, jocosamente apelidado de “Caqui e Amora”, possuía uma fauna bem exótica de apresentadores e, claro, de populares.
A “obra cinematográfica” na qual fui filmado, tratava-se de um assassinato. Correto, uma sangrenta cena de crime. Meu amigo e eu, sabendo da ocorrência, fomos engrossar a massa de curiosos. Foi quando a câmera circulou, que fomos capturados pelas lentes do popularesco ‘Aqui Agora’ e espalhados do “Oiapoque ao Chuí”. Entre policiais, repórteres, a vítima e muito sangue, tive um breve registro entre outros populares.
Estrelar esse jornaleco, como curioso, numa cena de crime, na periferia de Guarulhos, não foi nada edificante. Só mesmo o tempo, um tantinho de maturidade e saber rir dessa situação para tornar esta historia digna de ser contada.
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