CRÔNICA: 80 SONS DE TIROS
80 SONS DE TIROS
POU! O primeiro tiro devastou a humanidade;
POU! O segundo, a dignidade;
POU! O terceiro, a cidadania;
O quarto, o direito;
O quinto, o dever;
O sexto, a justiça;
O sétimo, o respeito;
O oitavo, a igualdade;
O nono, a diversidade;
O décimo, a consciência.
Sem satisfazer-se, com tanta frieza vieram os demais tiros.
Do décimo primeiro ao vigésimo acertava-se em cheio a história de vida: uma infância de brincadeiras, uma adolescência de aprendizados, uma juventude de oportunidades, uma fase adulta de realizações e uma velhice de possíveis possibilidades.
Embalados pelo ódio e ignorância chegaram sobre àqueles a rajada de tiros do vigésimo primeiro ao quadragésimo, consumindo metade das vidas que ali estavam. Já não se sabia ao certo o que sobrara, pois, de certa forma, todos foram atingidos. Os tiros perfuraram as alegrias, os desejos, os anseios, os sonhos, as expectativas e os ideais.
Sem ao menos darem o direito ao diálogo, ouvir o que tinham a dizer, sequenciaram do quadragésimo primeiro ao septuagésimo tiro, com balas que condenaram e devastaram... pais, mães, avós, sogros e sogras, filhos e filhas; gerações e famílias foram destruídas. E pra derramar as últimas gotas de sangue vieram os tiros certeiros, do septuagésimo primeiro ao septuagésimo nono, encerrando ali qualquer fio de amor, carinho ou esperança, deixando apenas marcas da crueldade humana, do militarismo vigente, da desigualdade e injustiça social, do preconceito, da violência exacerbada, da ignorância e desmandos políticos, da despreparação de quem deveria proteger, da falta de fé e humildade, da tristeza de uma nação que a cada dia vê-se na mira de quem não sabe enxergar.
POU! Octogésimo tiro, restou apenas o silêncio.
*Crônica em manifestação a morte do músico Evaldo dos Santos Rosa, 51 anos, em decorrência de uma operação do Exército, em Guadalupe, zona oeste do Rio de Janeiro, 2019.
POU! O primeiro tiro devastou a humanidade;
POU! O segundo, a dignidade;
POU! O terceiro, a cidadania;
O quarto, o direito;
O quinto, o dever;
O sexto, a justiça;
O sétimo, o respeito;
O oitavo, a igualdade;
O nono, a diversidade;
O décimo, a consciência.
Sem satisfazer-se, com tanta frieza vieram os demais tiros.
Do décimo primeiro ao vigésimo acertava-se em cheio a história de vida: uma infância de brincadeiras, uma adolescência de aprendizados, uma juventude de oportunidades, uma fase adulta de realizações e uma velhice de possíveis possibilidades.
Embalados pelo ódio e ignorância chegaram sobre àqueles a rajada de tiros do vigésimo primeiro ao quadragésimo, consumindo metade das vidas que ali estavam. Já não se sabia ao certo o que sobrara, pois, de certa forma, todos foram atingidos. Os tiros perfuraram as alegrias, os desejos, os anseios, os sonhos, as expectativas e os ideais.
Sem ao menos darem o direito ao diálogo, ouvir o que tinham a dizer, sequenciaram do quadragésimo primeiro ao septuagésimo tiro, com balas que condenaram e devastaram... pais, mães, avós, sogros e sogras, filhos e filhas; gerações e famílias foram destruídas. E pra derramar as últimas gotas de sangue vieram os tiros certeiros, do septuagésimo primeiro ao septuagésimo nono, encerrando ali qualquer fio de amor, carinho ou esperança, deixando apenas marcas da crueldade humana, do militarismo vigente, da desigualdade e injustiça social, do preconceito, da violência exacerbada, da ignorância e desmandos políticos, da despreparação de quem deveria proteger, da falta de fé e humildade, da tristeza de uma nação que a cada dia vê-se na mira de quem não sabe enxergar.
POU! Octogésimo tiro, restou apenas o silêncio.
*Crônica em manifestação a morte do músico Evaldo dos Santos Rosa, 51 anos, em decorrência de uma operação do Exército, em Guadalupe, zona oeste do Rio de Janeiro, 2019.
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