🔵 Mistérios da meia-noite
Todos concordaram com aquele desafio. Talvez alguém não concordasse com a prova besta, contudo não ousou se manifestar. Aquilo era quase um clichê: entrar no cemitério à meia-noite. No entanto, mais do que ter, era preciso demonstrar coragem.
Este plano não estava incluído no rol de atividades relacionadas a uma banda de rock. Contudo, a presença em frente à necrópole, àquele horário, instigou a triste ideia. Como ninguém arredaria o pé, perante uma plateia sedenta por localizar a covardia, todos concordaram em invadir o dormitório eterno.
O arame farpado sobre o portão denunciava a frequência do local: penas de frango enroscadas. Vencendo o portão secundário, seria muito humilhante desistir do infeliz rito de passagem.
Andando lentamente e em silêncio, o objetivo óbvio era alcançar o meio do cemitério e aguardar para... não acontecer nada. A lógica indicava que o cemitério à noite era menos frequentado e mais silencioso. Qualquer som ou movimento que alterasse o esperado seria motivo para esquecer a coragem e correr. A interpretação imediata seria de um acontecimento sobrenatural.
As árvores secas, os monumentos funerários, algumas sepulturas precárias e as lápides lembravam que estávamos num ambiente sombrio. Os retratos e os epitáfios emprestavam uma perturbadora pessoalidade ao fúnebre “passeio”. O fogo-fátuo, embora seja um fenômeno facilmente explicável pela ciência, seria o suficiente para povoar de contornos fantasmagóricos a nebulosa excursão. O horror da expectativa era o suficiente para gelar a espinha.
Como não acontecia nada (ainda bem), a tranquilidade aparente favoreceu arriscarmos algumas estórias de terror. Fora os roedores e insetos rasteiros, nem os contos manjados causavam pânico. A atitude mais sóbria era nos evadir do local, tomando cuidado para não rasgar a pele no arame farpado.
Seria mais embaraçoso acusar o terror de ratos e baratas, saindo e entrando nas tumbas, realizando o asqueroso, embora necessário trabalho de decompor os cadáveres. Fantasmas, em comparação com os animais nojentos, seriam encarados com mais altivez e relatados com um indisfarçável orgulho.
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