🔵 Chá com cacto
Não foi minha primeira professora, isso é coisa de gente famosa. Na verdade, nem lembro muito dela. Contudo, três alunos e eu fizemos um gesto inédito (para nós): visitamos e presenteamos a incansável docente. Portanto, fomos resgatados do submundo estudantil e alçados ao panteão habitado pelos alunos exemplares.
Por algum motivo ela foi com a nossa cara, mesmo não sendo os melhores alunos. O atendimento privilegiado durante o ano letivo mereceu uma troca justa. Teríamos que superar os péssimos modos, fazendo uma visita e entregando um presente. O momento ideal seria o Dia dos Professores. Nossos insuficientes conhecimentos de botânica e o baixo orçamento nos inspirou a comprar, em vez de um ramalhete de rosas, a planta mais exótica: um cacto.
Cacto não era a planta ideal para presentear alguém. No entanto, era a melhor metáfora para o Dia dos Professores: cuidar, procurando não se machucar. Por mais ofensivo que pudesse ser, o presente era necessário, pois poderia render boas notas. Além disso, mostrava que não éramos a escória daquele colégio e que, procurando bem, naquelas notas baixas, havia algum sentimento... escondido entre os espinhos.
Diferentemente do que todos presumiam, enfrentar a loja de flores foi bem fácil. Aquele vasinho com o cacto fincado parecia nosso. Chamou nossa atenção, como um cachorrinho numa loja de animais, então compramos a planta.
O presente poderia ser uma caixa de bombons, no entanto o maldito e espinhento cacto tinha uma função nobre: em cima da geladeira ou na estante, o vegetal intimidaria a coitada, toda vez que ela fosse corrigir as nossas provas. A estratégia tinha tudo para funcionar enquanto a nossa “infiltrada” sobrevivesse.
Fazer sala e tomar chá com biscoitos conversando coisas como “esse mundo tá muito louco” e “essa juventude está perdida” foi mais chato que estudar para a prova de Matemática. Para piorar, poderíamos estar jogando bola. Entretanto, o motivo era importante e valia o esforço.
Não sei se foi por causa do vegetal implantado, mas, confirmando a eficácia da chantagem emocional, naquele fim de ano letivo choveram notas boas.
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