🔵 Aniversário fora de época
Com alguma ansiedade, mal disfarçada de pressa, já que a faculdade ficava deserta à tarde, mais uma vez eu girava a roleta, descia as várias escadas e percorria corredores até chegar à biblioteca. Bastava entregar a carteirinha e acessar um computador. Todo o procedimento fazia com que eu fosse confundido com um aluno da faculdade e, de certo modo, me comportava para contribuir com a verossimilhança.
Eu podia acessar a internet gratuitamente, estudar e conferir os resultados do concurso público. Entretanto, um detalhe sem importância me distraia. Embora meses distanciavam a data do meu aniversario, a tela exibia a data errada: 4 de janeiro (meu aniversário). Troquei de micro, a mesma coisa. Estiquei o olho em outros computadores ocupados: 4 de janeiro.
Eu estava propenso a acreditar em algo transcendental, mas não naquele momento. Depois de esgotadas as possibilidades de coincidência e sincronicidade, achei que aquele caso era falta de manutenção. Como o resultado do concurso não havia sido divulgado, a decepção foi proporcional à, até aquele momento, coincidência, sincronicidade, transcendência ou falta de manutenção que deixou a data do meu aniversario nos computadores. Diferentemente do que esperava, faltou o presente.
Voltei dias depois. Repeti o mesmo trajeto, suplantei os mesmos obstáculos e já acostumado e gostando daquilo, fui tratado como aluno da universidade. Quando cheguei no micro, olhei a data. Lá estava: 4 de janeiro. Conferi outras máquinas, e a efeméride se repetia. A probabilidade da “coincidência” era remota: 0,27397260 %.
Aquele acontecimento só podia ser um sinal. A esperança de que aquilo fosse um sinal atenuava minha ansiedade, podendo ser, finalmente, o “presente” aguardado.
O resultado positivo do concurso impulsionou o mistério da data. Seja o que for, do início da empreitada (biblioteca) até o término, tudo foi perfeito. O incrível, o bizarro e o imaginário povoaram as possibilidades místicas. No entanto, minhas maiores elucubrações não se realizariam se eu não estudasse.
“Há mais coisas entre o céu e a Terra do que pode imaginar nossa vã filosofia”.
(William Shakespeare)
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