🔵 No rio dos tubarões * (Peruíbe)
Não precisei voar para o Japão nem para o Oriente Médio; não tive que vender um rim nem qualquer órgão ou objeto valioso. Bastou achar um estacionamento grátis, no estádio do Morumbi para assistir ao jogo do Corinthians contra o Real Madri, da Espanha, pelo campeonato Mundial de Clubes da FIFA 2000.
Me chamaram para assistir à final contra o Vasco da Gama, no Maracanã. Mas eu preferi ir à praia, em Peruíbe, São Paulo. Cheguei em cima da hora. A família corintiana, um são-paulino e um santista. A disputa nos pênaltis ajudou a “pilhar” o clima de decisão. Meu tio, como tradição, foi caminhar para “não sofrer” a cada cobrança. O “não sofrer” (entre aspas) significa que é impossível não sofrer com qualquer disputa, em qualquer lugar, envolvendo o nome do Corinthians. Então, esse hábito não tem escapatória: cada grito e cada estrondo de rojão tem um “DNA” ou a “impressão digital” alvinegra.
Vencido o jogo e o primeiro Mundial de Clubes da FIFA, mantivemos um irresponsável costume, saímos pela cidade. Fosse em Peruíbe ou na Inglaterra, as ruas estariam lotadas de corintianos, ô raça!
O litoral de Peruíbe, virando nosso quintal, trouxe repentinamente uma lembrança nada edificante e que somatiza, automaticamente, um embrulho no estômago, dor de cabeça e tremedeira:
Naquelas areias, há alguns anos, a notícia de que era aniversário do meu cunhado e meu chegou aos ouvidos da proprietária de uma barraquinha de batidas, raspadinhas, caipirinhas e tudo que fosse demasiadamente alcoólico. Sabendo da data (no final do expediente), ela resolveu usar toda sua criatividade, e um pouco de bruxaria, adquirida durante anos de preparo de drinques com teor entorpecente.
A “véia” resolveu levar menos peso pra casa, de modo que ela despejou o resto de todas as garrafas nos copos. O resultado foi uma intoxicante “farmácia”, quase tão eficiente quanto injeção letal.
Rosa. Sim, a dona do carrinho de bebidas foi batizada com este singelo nome. Mesmo assim, quase nos assassinou recolhendo o resto do que havia de pior em cada garrafa. Dona Rosa, a bruxa, e seu drinque diabólico se tornaram inesquecíveis.
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