🔵 Movidos a álcool
Aquela fileira parecia uma horda de bárbaros pronta para o ataque. Nós bufávamos como que sedentos por sangue, ameaçávamos como cães raivosos. Dado o sinal, partimos. A poeira levantada e o barulho remetiam a memória ao que deveria ser uma batalha ou corrida sobre cavalos. No entanto, era um bando de pirralhos inofensivos que ainda iam para a escolinha pré-primário, chamavam a professora de tia, brincavam num cercadinho de areia durante o recreio e levavam uma constrangedora lancheira a tiracolo — no meu caso, com suco de laranja, pão com mortadela e, às vezes, Lanche Mirabel e Groselha Vitaminada Milani.
Do nosso ponto de vista, tudo ganhava proporções grandiosas e pretensamente importantes. Para os adultos, éramos apenas um bando de pivetes colorindo casinhas, animaizinhos etc. Contudo, não nos importando com os outros, víamos fardas camufladas em vez do tênis Conga, bonezinho com fivela e uniformezinho azul; e um alforge de guerra em vez da ridícula lancheirinha a tiracolo.
Pois bem, o mimeógrafo cuspia desenhos infantis e, principalmente, um cheiro de álcool que tomava conta da sala de aula e, talvez, da escolinha toda. A professorinha mal ameaçava avisar o início do recreio para corrermos desesperados. A interrupção do silêncio escolar parecia a evacuação de um edifício em chamas. Essa cena correspondia a uma disputa para garantir os melhores pneus. O espírito de competição era incompatível com a idade dos litigantes. Porém, a disputa correspondia ao estouro de uma boiada ou ao avanço de uma cavalaria. O súbito despertar poderia ser efeito do álcool.
O sinal avisava que o recreio havia sido encerrado, portanto a corrida de pneus teria que terminar e voltaríamos para a salinha. A realidade revelava a incipiência da nossa vida. Sem suspeitarmos, a existência seria repleta de disputas muito mais sérias. Não obstante, era o momento de pintar desenhos encharcados de álcool.
Éramos tão pequenos, entretanto já lidávamos com trapaças, bullying, derrotas e vitórias. Foi um bom “batismo de fogo” para as décadas seguintes.
Texto com imagens no blog:
Gazeta Explosiva
Do nosso ponto de vista, tudo ganhava proporções grandiosas e pretensamente importantes. Para os adultos, éramos apenas um bando de pivetes colorindo casinhas, animaizinhos etc. Contudo, não nos importando com os outros, víamos fardas camufladas em vez do tênis Conga, bonezinho com fivela e uniformezinho azul; e um alforge de guerra em vez da ridícula lancheirinha a tiracolo.
Pois bem, o mimeógrafo cuspia desenhos infantis e, principalmente, um cheiro de álcool que tomava conta da sala de aula e, talvez, da escolinha toda. A professorinha mal ameaçava avisar o início do recreio para corrermos desesperados. A interrupção do silêncio escolar parecia a evacuação de um edifício em chamas. Essa cena correspondia a uma disputa para garantir os melhores pneus. O espírito de competição era incompatível com a idade dos litigantes. Porém, a disputa correspondia ao estouro de uma boiada ou ao avanço de uma cavalaria. O súbito despertar poderia ser efeito do álcool.
O sinal avisava que o recreio havia sido encerrado, portanto a corrida de pneus teria que terminar e voltaríamos para a salinha. A realidade revelava a incipiência da nossa vida. Sem suspeitarmos, a existência seria repleta de disputas muito mais sérias. Não obstante, era o momento de pintar desenhos encharcados de álcool.
Éramos tão pequenos, entretanto já lidávamos com trapaças, bullying, derrotas e vitórias. Foi um bom “batismo de fogo” para as décadas seguintes.
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