POR TI GUADIANA
Por ti Guadiana,
Escrevi cartas a navegar
Nas tuas águas perdidas,
Com devoção a rezar.
Pelos perigos perseguida.
Confiava no teu colo,
E ia narrando a nossa história,
Tudo me servia de consolo,
Nesta vida tão inglória.
Com a lua a brilhar, as sombras espiava,
E no murmúrio medonho, as tuas águas,
Escondiam o tráfico que tanto pesava,
E serenava meu peito cheio de mágoas.
Nas noites de breu, as barcaças dançavam,
E os fantasmas no sossego a segredar,
As vidas furtivas que por ti navegavam,
Desafiando o perigo para se alimentar.
No vale do silêncio, os olhos atentos,
Os passos na margem, o peso do ouro,
Guardam o que podem, segredos e lamentos.
O tabaco e o café como se fosse um tesouro.
No contrabando há dor e há esperança,
Entre Portugal e Espanha, um elo traçado,
Um jogo de riscos, uma eterna dança,
Nas águas do rio um destino marcado.
Por cada curva do rio, um pacto selado,
A vida num fio, a coragem à prova,
Entre a escuridão e o sonho falhado,
Guadiana profundo, onde a lei se renova.
Mas o rio guarda tudo, histórias e mágoas,
As almas que cruzam, nas suas águas,
E à alvorada, quando a luz se avista,
Guadiana sorri a banhar suas margens.
24/05/2024, Maria Antonieta Matos