O museu das derrotas abre suas portas
E eu entro sem querer, sem ter pago ingresso.
Nele, os dias acinzentados trituram os prazeres atuais,
Tiram o brilho de todo tesouro,
Transformam fino vinho em cachaça vagabunda.
O ânimo que animava as horas
Agora é um urubu magricelo que se arrasta.
E os sólidos valores que seguravam-me
Tremem sob o peso das dúvidas.

Olho para uma direção longe da coragem,
E o calor das paixões recebe água fria.
Nestes momentos, nesses quadros sem vivacidade,
Sinto-me um macaco entre grandes intelectuais,
Um barco perdido, distante de faróis renovadores.
Sou um triste crítico dos grandes feitos humanos,
Não encontro conhecimento que salva dos desanimados corredores.
Cumpro o jogo imposto pelos poderosos, sigo as obrigações
Protocolares, sirvo às vontades do ingrato tempo 
E percebo que nada ganhei em toda a corrida.

São instantes que parecem banir-me do teatro das alegrias,
E me jogam no estádio do pessimismo intenso.
As fezes matinais custam em meu rosto um desencanto,
E as tardes entediantes enforcam meus desejos.
A cantiga perene do perdedor ecoa em meus ouvidos,
Uma música que não cessa, riffs da impaciência.

Mas mesmo aqui, nas salas nada animadoras,
No meio desta exposição de perdas e desânimos,
É necessário encontrar outro destino para passeio,
Um lugar que tente me tirar desta barriga
Prenhe de tristezas, que me devolva ao brilho,
À coragem, ao calor do toque humano, ao vinho distinto.
Porque o museu das derrotas pode ganhar minhas horas,
Mas não será eterno, não consumirá todos os meus dias.

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