Re(viver) o legado

A noite não somente

no sentido subjetivo

no Hemisfério Austral,

agora parece destino.

 

Tudo em nós é indígena,

e absolutamente latino,

têm rumo e atravessa.  

Os olhos não esquecem

nunca de olhar para o alto.

 

Meus olhos são teus olhos,

e os sonhos são os mesmos,

De pé e jamais de joelhos,

nós sabemos da onde viemos.

 

A tua alma é a alma da minha,

e a minh’alma é a tu’alma.

Seja em paz ou quando aflita,

o que é sobrenatural nos alia.  

 

Sem olhar para cartilha,

sem fingir que nada afeta

e para deixar o alerta:

que as raízes doem com real motivo

onde e porque o povo sofrido

está sendo reprimido pelo despotismo.  

 

Discreta lágrima sutil que desce

com o sabor do Salar de Uyuni.

Continental evidente tem

sido o tamanho do desajuste.  

 

Não te vejo, sei que me vês,

sentimos muito por dentro.

E sem dizer uma palavra

plantamos um jardim inteiro

e em silêncio de maio,

em tempo de re(viver)

o legado de Roque Dalton.

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