GRAÇAS
Paulo Sérgio Rosseto
Minha mãe passou a vida
Investigando cantos para limpar
Ela perseguia superfícies empoeiradas
Com tamanha tenacidade
Que os espaços da casa
Sentiam até gosto de se sujar
Porque antes de tirar propriamente a poeira
Minha mãe fazia desenhos
Com a ponta dos dedos no pó
Ali se alternavam estados de graça
Entre quadrados círculos flechas e corações
Cada linha externava um segredo
Que ela jamais quis contar
Depois lustrava o móvel com calma
Onde sua alma renovada
Brincava de desenhar
Era seu jeito de arte
Traduzindo saudade
No tempo de algum lugar
@psrosseto
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