Posso rasgar minhas vestes  - perante
minha vergonha ... como também
posso ficar andando sem destino nas ruas
escuras desta cidade  - onde são escolhidas as
várias e incontáveis ternuras.

Posso ouvir as buzinas dos carros me 
azucrinando - sai  da frente velho gagá  - pois
estás a atrapalhar o transito  - pois minha audição
já não é como d' antes .

Posso me orgulhar dos meus tempos idos - 
quando era ágil  e de relativa beleza... pois me
amava  e gostava  das mulheres 
que viviam nos bares bebericando.

Me deliciava com os banhos de mares em noites
quentes - minha nudez era minha castidade... gostava de
sonhar e tentar desenhar as estrelas tão azuis - como
nosso céu em sua plenitude.

Ainda pois - posso rasgar minha roupas  - sem
nenhum arrependimento  e ficar nu  -  em plena
praia  - onde as marés estão mansas  perante
todas minhas incontáveis virtudes.

Pois que assim sejam - todos minhas vontades
na minha velhice  - em que atravessei  os
caminhos ondulantes desta juventude.

Ademir o poeta.

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