Eu nasci sem nada,
Pelado, careca e inocente,
Continuo sem nada,
Novamente careca, agora vestido e indecente.

Não perdi nada desde então,
Mas também não ganhei,
Vida nula, sem graça,
Por que vim? Não sei!

Acho que foi para encher o mundo,
Ou seria encher alguns sacos?
Sou um honesto absurdo,
Mereço uns sopapos.

Aprendi a andar, a falar e a escrever,
Não aprendi a fazer contas,
E nessa eu me ferrei,
Nada tenho para viver.

Mas insisto na vida,
Dizem que ela é dadivosa,
Para mim nunca foi nada,
É mesmo duvidosa...

No dia em que vi a luz,
Saindo do útero da minha mãe,
Eu achei tudo muito lindo,
Até levar o tapa do doutor. O primeiro.

Como eu estava enganado!
Cresci a muito custo,
Mas não tanto como eu queria,
Nem mesmo sei o que queria.

Acho que não queria nada,
Que nada queriam de mim,
No começo a vida me levava,
Então gostei dela assim.

Só que fui descendo a ladeira,
Quando vi já estava muito embaixo,
Para voltar sofri de preguiça e lombeira,
Tornei-me assim um belo dum capacho.

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