Sou um rio descendo a serra,
Ainda de águas limpas,
Daqui vejo a terra,
Onde em breve fico turvo.

Perderei minha pureza,
Em meio a tanta sujeira,
Os peixes que hoje tenho,
Daqui a pouco se acabam.

O homem e suas mazelas,
Por dinheiro e vaidade,
Torna tudo uma nojeira,
Faz da vida calamidade.

E seguirei o meu destino,
Mais embaixo recebo lixo,
Depois num desatino,
Eu invado um bairro todo.

Essa é a minha vingança,
Por todo mal que me fazem,
Eu vinha trazendo esperança,
E recebo de volta sacanagem.

Olha, agora tem barragem,
Não posso seguir o meu curso,
Desviaram a minha rota,
Me usaram para fazer discurso.

Eu era feliz antes daqui,
Nem sei se o mar me espera,
Posso até desistir, secar,
Morrer, e ninguém se desespera.

Eu trazia a vida em mim,
Hoje eu estou quase morto,
Corro porque minha natureza é assim,
Mas agora me tornaram um esgoto.

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