Jorge E. Leal

 

Aqui, nesse conto que conto, vive-se um território devastado de espaços quebrados de almas perdidas, sem uma única moeda para Caronte. Nadam em suas pieguices, esmolam dia após dia, por décadas, acreditando no conto de fadas que irá tirá-los de sua realidade nua e crua.

Não sei se conto. Saber ao certo sobre mais nada é uma dádiva ou uma maldição, vivendo entre aqueles que nada sabem, os que sabem que não sabem e os que não sabem que sabem — e, se soubessem, fariam dar certo. Ninguém tem consciência de nada; nadam numa dimensão perdida, mas ninguém se importa, a não ser com o próprio umbigo da imediatez.

Desconto que a tez, há muito queimada do ralo ao sol radiante em meio a pedras, desertos e à parca vegetação, foi destruída pelas ações insanas, impensadas face ao futuro das gerações vindouras. Que arrependimento deve ter a cobra rastejante, remontando ao dia da maçã! Pois ela não mais pode cravar seus dentes em meio à folha que caiu e definhou sua árvore da vida.

De onde escorre esse líquido vital que destrói tudo ao seu redor, refletindo-se em tudo, desde o inseto que voa entre a floresta devastada soltando seus zumbidos de tristeza, de medo e de vergonha pelo que a cobra fez? Mas de quem é a culpa? Dos incautos humanos sedentos de poder e dominação ou da cobra esguia e traiçoeira, que não mediu as consequências de seu ato?

Não se conta o tempo da finitude do mundo ou da infinitude do universo nos ecos que não se escutam pela arrogância e desplante do nada. Pois em tudo está a presença do homem, naturalmente imperfeito, sem saber ao certo qual o seu papel na natureza e qual é a natureza dos seres no mundo. Gritante é o desafio de fazer o bípede chegar a essa compreensão.

Talvez, e só talvez, haja uma solução para o problema em sua essência desumana; uma luz no fim que possa separá-los do silêncio em seu ego, do grito de socorro da mãe natureza, e que possa lhes permitir libertar-se dessas amarras, dessa prisão que impingem a tudo e a todos ao seu redor.

Escutem, por exemplo, a esses absurdos e abram os olhos. Entre os arbustos, busquem a acuidade para ver através das folhagens com uma visão periférica e diretora de profundidade. Mas a mãe natureza não responde; se cala e faz acontecer a olhos vistos, ante a descrença do Homo sapiens.

Mas saracoteiam perguntas sem respostas: quem, como, onde, por que... sem som de retorno, num silêncio sepulcral que arrepia os ouvidos, que não contam a história marcada por tragédias perpetradas alhures e algures, por fulano, sicrano e beltrano, todos juntos e embolados, ajudados por aspones e asmenes, sem pesar as consequências de seus atos e de suas ações insanas e impensadas.

A realidade do mundo está mais feia do que batida de carroça, que espalha o homem para um lado, o cavalo para o outro, a carroça em cima dos dois e as mercadorias perdidas sabe-se lá onde. Podemos imaginá-los: o cavalo pensando no que fez de ruim para estar ali naquela situação, e o homem querendo atribuir ou distribuir a culpa a alguém ou a alguma coisa.

Não resta dúvida de que a carroça e o cavalo cumprem sua missão do dia a dia. Já o homem, por outro lado, deixa a desejar. Eis que sobrevoa a dúvida sobre quem tem mais cérebro: o cavalo, que não sabe o que faz, ou o homem, que sabe e é o senhor da razão. Como estaria o mundo se fosse o inverso no pensar, querer e fazer de ambos?

Como explicar tudo isso à grande mãe e às suas leis? Mas tudo isso para o homem é nada. Não se separam nem se misturam as coisas por causa da hipótese do cavalo. Não se para o mundo nem mesmo por causa do homem. Esse homem que enterra a si próprio e aos outros, e tudo ao seu redor; que destrói para construir e constrói para destruir.

Feito de carne e osso, pensa que é de ferro e aço. Chega à conclusão, em seu pensamento, de sua fragilidade diante da dor, mas logo esquece, assim que se recupera. Por ser indigno ao tempo de vida lhe ofertado, ingrato? "Ora, um cavalo não pensa nessas coisas e não se preocupa", reflete o homem descompensadamente. De quem é a razão, afinal?

Enquanto isso, o homem, breve passageiro do tempo, conta que atravessa a vida sem nenhuma ferida até a sua última fronteira. Essa linha que separa a vida e a morte o homem atravessa, mas sabe que não tem mais retorno. Esconde seu medo até o dia de ir e não voltar mais. E jaz aquele homem que ficou trancado na linha do tempo e do espaço, sem fronteira e sem lado.

Resta-lhe o grito desesperado quando a ficha cair. Será tarde demais para se escutar o eco da vida. Então, o homem terá a certeza de que era louco e de que a loucura lhe cegou no espaço de penitência e arrependimento, onde só existe a partida sem volta.

Não sei se conto, o conto que não conto, dura realidade ao se depararem, no subterrâneo, com os vermes em seu território — que estava vazio até a chegada do homem —, sem mais poder afetar as cobras, as pedras ou a vegetação em plena natureza. E isso não é história. Pois não existe estória onde nada mais acontece; não é mais uma história que precise contar, já que ela se conta sozinha para contar o que não se conta e, talvez, não se leve em conta: o conto que conto.

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