Na silenciosa garoa da madrugada, pode-se ouvir pelas frestas do silêncio, os passos desconcertados de uma criança, cujos pés encharcados pelo abandono, tropeçam em descasos e sentenças no lixo da individualidade humana.

Não teve a sorte de tantos, não foi convidado para a festa e foi brincar de fantasias nas ruas despidas de solidariedade, levado pelo torpor das inércias.

Fechadas as portas, pelas trancas de dentro, a pequena figura desaparece, assim como os raros momentos de reflexão alheia. O silêncio das ruas é quebrado pelo som da tv, onde um ídolo dominador de influências e coberto por adornos dourados é delirado e deglutido por milhões de fãs e seguidores.

A garoa vista das vidraças, quando se está aconchegado em um suntuoso sofá saboreando finos biscoitos importados e abraçado por um cobertor, não incomoda.

Na tv, o início de uma propaganda política, leva falsas promessas em mensagens com sabor de corrupção.  Uma mão procura o controle remoto enquanto se ouve lábios sussurrando: -Não me interesso por política. São todos iguais!

Lá fora, a realidade está molhada pela garoa que cai.

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