De mim
Tive uma avó como toda a gente,
uma bisavó como ninguém
tinha saias até ao chão,
cheirava rapé,
nasceu no século desanove
e não tinha vintém.
Ensinou-me a acreditar
que deus não existe,
os santos também não,
que o diabo atenta,
e que fátima só
acredita o cristão.
Pediu-me pra
não roubar,
pra não matar,
pra não maldizer,
e nunca humanos, animais e plantas
desconsiderar.
Abriu-me portas de catedrais
palácios de conviver,
deu-me asas de longo alcance,
visão de pássaros urbanos,
iluminou-me os vales do saber,
contando-me histórias
de quem não sabia ler.
Amou-me como minha mãe,
despediu-se como se voltasse,
encontro-a vezes e vezes
nas retas da decisão,
Maria foi seu nome,
vai e vem nas vagas do tempo
nas curvas do coração.
Emílio Casanova, in "ninguém compra".
Comentários (1)
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Adalto José
2011-09-10
Caro poeta:duas preciosidades,sua bisavó,e sua poesia retratando-a.Ainda há coisas boas....*Deus existe...
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