A réplica de Narciso
Encontrava-se ainda em seu quarto quando alguém gritou:
- Saias da frente do espelho, Narciso! Um tal sujeito te acusa!
As frases que percorreram o corredor imediatamente se dispersaram e desapareceram nas muitas sombras projetadas pelas paredes que antecediam a porta do quarto do moço. Um silêncio absoluto.
De repente...
- Sei bem - respondeu Narciso, sem lhe voltar o rosto, fitando o próprio reflexo enquanto penteava os cabelos. - Diz ele que me amo mais que ao resto. É de fato um tolo, ignora que sou um artista! Não sou eu a beleza que enxergo, portanto não é a mim que eu amo, mas a outro. Busco a perfeição, como o faz o músico, de igual modo o pintor, o poeta, o dançarino, o orador. Como o fazem também os cientistas, confinados por horas em um laboratório. Falta ainda um pequeno detalhe a este rosto! Por isso me penteio.
Perguntaram-lhe:
- Sentirás saudade de mim?
- Insisto que tal saudade é impossível, um sentimento estúpido. O "eu" é sempre inacessível, e sempre o haverá de ser, ocultando-se sob muitas máscaras, a saber o corpo, a voz, a textura, a cor, o cheiro, a largura, etc. Como poderia sentir saudade daquilo que jamais conheci? Em verdade em verdade te digo que sou incapaz de sentir saudade de ti, do teu "eu", insondável e obscuro. Sinto saudade de teus dedos (por meio dos quais tocavas as minhas mãos), dos teus olhos (por meio dos quais vias o mundo), dos teus lábios (com os quais me beijava com ardor), dos teu pés (cujos calcanhares, graciosos, eram pequenos e rosados). O teu temperamento! A tua moral. A tua memória. Etc., etc. Não posso eu substituir todas estas coisas? Jamais te conheci e jamais sentirei isso por ti.
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- Saias da frente do espelho, Narciso! Um tal sujeito te acusa!
As frases que percorreram o corredor imediatamente se dispersaram e desapareceram nas muitas sombras projetadas pelas paredes que antecediam a porta do quarto do moço. Um silêncio absoluto.
De repente...
- Sei bem - respondeu Narciso, sem lhe voltar o rosto, fitando o próprio reflexo enquanto penteava os cabelos. - Diz ele que me amo mais que ao resto. É de fato um tolo, ignora que sou um artista! Não sou eu a beleza que enxergo, portanto não é a mim que eu amo, mas a outro. Busco a perfeição, como o faz o músico, de igual modo o pintor, o poeta, o dançarino, o orador. Como o fazem também os cientistas, confinados por horas em um laboratório. Falta ainda um pequeno detalhe a este rosto! Por isso me penteio.
Perguntaram-lhe:
- Sentirás saudade de mim?
- Insisto que tal saudade é impossível, um sentimento estúpido. O "eu" é sempre inacessível, e sempre o haverá de ser, ocultando-se sob muitas máscaras, a saber o corpo, a voz, a textura, a cor, o cheiro, a largura, etc. Como poderia sentir saudade daquilo que jamais conheci? Em verdade em verdade te digo que sou incapaz de sentir saudade de ti, do teu "eu", insondável e obscuro. Sinto saudade de teus dedos (por meio dos quais tocavas as minhas mãos), dos teus olhos (por meio dos quais vias o mundo), dos teus lábios (com os quais me beijava com ardor), dos teu pés (cujos calcanhares, graciosos, eram pequenos e rosados). O teu temperamento! A tua moral. A tua memória. Etc., etc. Não posso eu substituir todas estas coisas? Jamais te conheci e jamais sentirei isso por ti.
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