A ÚLTIMA NOITE

Sentado numa poeirenta poltrona de cabedal a imitar napa,
lia jornais atrasados com noticias da última hora.
A melancolia cheirava a loção de barbeiro,
a pele tingida com cor de shopping,
iluminava a calma de um sol desanimado.
Bebia aquele silêncio morto com passos ocos,
que enchiam os corredores encharcados de lixivia.
Sonhos mudos embalados em cartão,
retardando a lentidão da solicitude de uma vontade
há muito tempo escapada.
Chovia sempre que escolhia aquele caminho,
onde pássaros atrasados buscavam o ninho.
Rasgava com toda a raiva poemas,
enquanto ouvia Leadbelly cantar "my girl, my girl, donát lie to me".
E dizia para si próprio: também não quero saber,
onde ela passou a última noite.
O musgo dormia abençoadamente na lareira


,2015
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