quando eu não tinha
Quando eu não te tinha,
Os meus momentos a sós eram passados no abismo,
Entre o nariz e a boca,
A realidade era outra coisa, menos boa, religiosa, alheia,
E o acordar me dividia,
Entre o lençol e o ir comigo sem mensurável projecto,
Cumprindo um ritual,
Sem dar por nada, sozinho e morto, ausente.
Quando eu não te tinha,
A solidão saía p'los olhos e me intimidava o desejo,
Como uma casa vazia.
A desgraça carpia a minha ausência infiltrada na sombra,
Batendo as horas.
O exílio não era nas hortas e nas nespereiras com frutos,
Os silêncios não eram sagrados
E as rotinas não saradas jamais passariam de básicas e banais.
Quando eu não te tinha,
Não sabia quem eu era, agora não sei quem sou,
Porque te tenho,
Como uma doença benigna e natural, um sopro,
Uma ideia vaga.
Convem conduzir-te p'ra longe da minha inveja,
Mas não sei como.
(Tal é a minha descrença nas teorias da humanidade)
Esperança, quando eu te via nos reflexos d'outros óculos
Era feliz, reconheço-o,
Agora estou ciente que quero o universo inteiro
D'um todo
E nem por isso sou mais brilhante ou autêntico,
Do que outra realidade qualquer.
Joel Matos (02/2011)
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