O SER: SENCIÊNCIA, IMAGEM E VERBO

Que posso eu dizer
do neandertal sem que pensem que
sou algum alucinado que vive a rogar
pragas alheias?

Que posso dizer
de minha imanente condição humana
de possuir, de modo intrínseco
e inalienável, o bem
e o mal,

sem que pensem
que vivo a cultivar sombras?

Então,
vou falar sobre as palavras,
que riscam os ares a ressoarem imperativos
com absolvições e condenações
de nossos (di) simétricos
semelhantes ,

a decidirem os destinos
do mundo entre pazes e guerras,
a se ondularem entre amores cálidos
e rancores verborrágicos,

a fabricarem, enfim,
do senciente ego sapiens,
imagens de toda ordem sob as luzes
do grande espetáculo.

Ei-las, as palavras,
todos as querem belas e lúgubres;
mas, quando tropeçam
em alguma pedra,

transparecem
os abismos que há sob as superfícies
calmas do ser!
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