Pelos milhares de anos do mundo

nascem os sóis e caem as tardes

e florescem as flores e se desvela

a lua e estrelas e os primeiros versos

quando alguém chorou e os olhos

beberam da primeira madrugada

Mananciais do Tempo sibilino

num jogo de luz e sombra

noites e dias

sim e não

Yin e yang



As noites trazem o mar da minha infância

e o incessante começo dos teus olhos negros

trazem tuas pequenas mãos para as minhas

Trazem verdades e mentiras,

Sombras abstraídas?

Palavras extintas?

Paradigmas?

Retórica vã?

Metáforas?

Como saber a resposta se, pensando em ti,

todos os caminhos são plausíveis, como um rio

que segue o seu curso por pura solidão?



Comove-me o caminho de volta pra casa,

escorre no meu rosto uma lágrima que o

vento há de secar

O vento talhou o espelho e ele já não reflete

os horizontes estáticos

nem a lágrima que cintila

O tempo está morto e cai gota-a-gota das

mãos trêmulas do viajante cativo da

ilusão de ser e do engano da permanência



A vida inteira é um instante sobreposto

a outro instante, a outro instante e mais outro...

Ad infinitum

A vida pulsa e se expande

Enquanto eu sorvo o pulsar dos meus dias

e me embriago com a solidão que me

acompanha como uma pele estanque,

rastilho das horas aceso na alma,

fazendo das noites um tempo acorrentado

aos ventos inauditos que sopram do mar

para a ilha quando o outono chega

trazendo lembranças e inquietações

É preciso recuperar os dias primordiais

É preciso vivenciar a vertigem de se estar só



Enquanto escrevo ouço os pássaros cantando

Meu coração se enternece com o canto dos

pássaros

Todo dia o mesmo inédito recital que vem

ressonante no silêncio hierático e fluido de

algum lugar no mundo encantado das aves,

de algum pedaço de céu onde a vida se

abastece de poesia

O canto dos pássaros é a vida insinuada

entre o horizonte e as nuvens baixas deste

dia nublado, deste dia onde a amplidão

toca o chão com as suas vestes de brumas

O firmamento verga neste reino de cinza

e sombra, de pó e alheamento



Meus sonhos, sejam lá quais forem os ângulos

pelos quais eu os veja, evocam a Beleza

e procuram o poeta latente que me desse de

beber e saciasse minha fome e transformasse

minha ânsia de estesia na Beleza que procuro



Busco palavras entre as folhas que o outono

derruba

Nas noites escorrendo sonhos e inquietações

Na primeira história, no primeiro livro, nas

minhas mãos de criança

Atrás das longas sombras inquebrantáveis

no istmo das palavras buriladas na argila

e nas lágrimas das paredes da casa da infância



Eu nada sei dos séculos que por mim esperam

Eu nada sei dos séculos pelos quais passei

Eu nada sei dos agoras e seus espelhos opacos

Há milhoes de anos a vida se manifesta em sua

triste ira complacente e sempre nova e sempre

inaudita ferocidade pungente



Eu nada sei da poesia e da estesia da poesia

e da estesia da vida

Nada sei deste instante precário e perempto

onde as palavras dissolvem-se antes de

chegarem ao texto

E no lugar destas palavras fica um arguto silêncio

ficam personas e máscaras nas faces temerosas

fica o tempo ignoto, faminto da mesma Beleza

e da mesma estesia onde me busco



Os pássaros calaram-se

Cai uma chuvinha miúda enquanto o céu vai

descendo ao encontro das copas das árvores

A tarde está cinza e os pássaros calaram-se

A vida escoa lentamente

numa ociosidade silenciosa

Não há brisa, mas está no ar esta inocência

e este pressentimento que tornam a vida e

seus mistérios insofismáveis



Olho para o livro aberto e não lido

Olho para a minha vida aberta e não vivida

Em qual página da minha vida eu parei?

Eu quero a rua de terra e os meus pés de lata

Eu quero de volta o sonho e a inocência que

perdi sem perceber

Quero a primeira luz do mundo

Eu quero a primeira flor,

o primeiro amor,

o primeiro beijo

Quero o teu colo, Pingo

e teus olhos de noites consteladas

e teus beijos como os de Eva no paraíso



Olho para o céu e suas anáguas cinzas

gotejando o sussurro da chuva miudinha...

Olho para o livro aberto sobre a bancada...

Tropeço no silêncio da tarde e no silêncio

do canto nimbado dos pássaros



A vida é menor do que a arte

A arte é eterna

A vida é provisória...

e cabe interinha no trilar dos pássaros



Nada sei!!!

Eu nada sei!!!

Não me esqueci de nada.

Eu simplesmente não sei.
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