Olha a onda...
Que parte para o infinito estatelando-se
Ao comprido e depois elegantíssima, deixa
Seu marulhar desenrolar-se tão apaixonadíssima
Olha a onda...
Que vai e vem de mansinho até
Arrotar a solidão que se espraia circunscrita
Pelas entranhas da alma sempre proscrita
Olha a onda...
Fiel e inspirada convertendo cada
Verso no verbo amar fecundando
Todos os desejos e caricias a sublimar
Olha a onda...
Que de longe, muito longe desfalece e
Por fim, no estuário do tempo perfuma cada
Gota de silêncio além revolto e aprumado
Olha a onda...
Enamorada e embevecida bordando nas suas
Margens a noite vestida de luares tão legitimados
Até que o dia irrompa solene, festivo e consumado
Olha a onda...
Palmilhando léguas e léguas deste imenso mar
Deixando na maturidade da vida uma bênção que
Flutua na maternal e tão excessiva saudade abismada
Olha a onda...
Que nos rodeia com impropérios purificantes
Deixando no açude do silêncio cada píncaro
De ilusão reverberando tão, mas tão gratificante
Olha a onda...
Que gota a gota fecunda o leito dos amores
Mais refrescantes desintoxicando aquela anónima
Memória que este verso baptizou assim quase sufocante
Olha a onda...
Ardente e perpetuamente magnífica, tão concludente
Afogando-nos numa esplendorosa caricia nupcial
Qual feroz brisa rugindo num murmúrio sempre passional
Olha a onda...
Rugindo tristíssima, envergonhada mas digníssima
Clamando quais açoites nesta noite que ainda pranteia
E todo silêncio mais que possesso assim escamoteia
Frederico de Castro
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