SEPARAÇÃO
Vivemos tempos de paz, que paz absurda! Na guerra lutei contra mim mesmo, com o inimigo dormindo comigo. Vencê-lo, matá-lo e pendurar a sua cabeça em um mastro e exibi-la para que muitos temessem durou longos anos. Ao teu lado foi como se eu estivesse no abandono. Como o vento forma as ondas no mar, assim formou o meu desgosto, sugar a minha alma, destilar o mosto que embriaga o meu espirito e acaricia a lamúria dentro do âmago exposto, controvérsia, desacordo, total desconforto, não vislumbrava saída, era a prisão em vida sem cadeias, algemas em pulsos de vidro, afloradas peleias, espinhos na carne, adagas no coração, calos duros nos pés, cravos pregados nas mãos, sangue nos olhos, no olho do furacão, pisando em ovos, fardos pesados no lombo, sentir-se culpado sem culpa, cair e levantar-se de um tombo. Assim passaram-se os tempos, se verdade ou mentiras tamanhos contratempos, a comprimir minha paz, a exalar meu alento, a secar minha boca, aquecer meus tormentos, expandir minhas dúvidas e dilacerar fragmentos ao que os meus olhos viam e meus ouvidos ouviam, a loucura desnuda, a indiscrição aguda, o desrespeito a soar, males, fingimentos, cheiro de morte no ar. Como fugir, como partir para bem longe estar, círculo de fogo fechado, medo de me queimar, meu matrimônio arruinado e agora provado, sendo obrigado a deixar, aquela que era paz, mas tornou-se em guerras, que de tudo foi capaz até levar-me assaz a fugir do terror daquilo que iniciou-se em luz e transformou-se em trevas.
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