SEMENTE
As nêsperas na mesa
abrem-se fartas
de carne e suco
E o violento temporal
vai dedilhar os poros
revolver pedras
enxaguar
raízes e vermes
afogar
Teu fruto
(eu lembro) desfibrava fácil
e a carne vinha mole entre os dentes
As enxurradas vieram
como baladas rápidas de ávidos curumins
E os pássaros vieram sujos
de Bering ou Marrakesh
As águas chegaram. Outra vez, perenes
levando retratos, remexendo sulcos de discos esquecidos
evolando perfumes suaves de roupas e camas
Ah por que entre os verões o manancial da tua boca?
Por que esses perfis de narizes e lábios
entre o abandono de girassóis que já não buscam mais?
Por que a frase que tu queres e que não está em mim?
Pássaros e chuvas vão e vêm
e redesenharão fantásticos infinitos
enquanto for grande a imaginação da Esperança
Enquanto não pousarem no único fio retesado e melódico
E as fibras desse Verão venham entre os dentes
como reescrevessem c o n t r a p o n t o s
de melodias e réquiens
Prêmio Carlos Drummond de Andrade, SESC-DF. Seleção 2008.
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