VACÂNCIA
Aqueles olhos eram meigos, aqueles lábios traiçoeiros, o sorriso convidativo, a fala destilava favos de mel. Um trajo peculiar, num corpo tenso ao luar. Não me deixou falar, mas também não conseguiria. Meus pensamentos não eram o meu guia, muito forte o palpitar do meu coração eu sentia, havia um tremor em meu corpo, me faltava fôlego. Estava confuso, maravilhado e indeciso. O que há comigo? Nem a conheço! Já me virou ao avesso. Esqueci dos riscos, mas mantive meus medos. Ela dizia: vem, vamos ao luar e que não termine tão cedo as nossas delícias. Entre a mim e eu te mostrarei a olho nu onde moram os desejáveis astros dos céus. Eu não estava ébrio, mas era noite e o vento açoitava os seus cabelos, e os meus olhos fixos nela não eram muito ligeiros, pois me embriagava o seu aspecto. De nada servia o meu intelecto, os meus sentidos não conseguiam um retrospecto de uns poucos instantes. Quanta dúvida, quem será ela? Era verão, e o calor sufocava os meus poros, suado e sem reação me senti intimidado. Olhei em volta, não havia mais ninguém, ela se aproxima para junto de mim, tenso eu balbucio, mas ela me ignora, sinto como se um fogo me consumisse, como se tochas flamejantes saíssem pela minha boca. Queria perguntar, quem é você? De onde veio? Para aonde vai? Não tive tempo. Me abraçou e me beijou paralisado, me envolveu em seus braços, cobriu o meu rosto com os seus longos e perfumados cabelos, para mim eram devaneios, eu estava me queimando, como se o sol estivesse me abrasando, e de repente me levava, eu via luzes, estrelas, não sabia mais onde eu estava, ouvia a sua voz: não se entristeça te deixarei ir assim que sentires o prazer que a carne não fornece, agora você é o fogo que aquece os nossos corpos, e eu sou luz. Então percebi que não havia mais volta desde o dia em que ela havia morrido.
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