ROTINA DE UM VIGIA ANÔNIMO
É noite de lua clara, moro a poucos minutos do trabalho, sigo a pé, vejo não tão nitidamente o chão do calçamento, mas dá para andar sem usar lanterna. Por onde passo já no perímetro do local de chamada, não há iluminação artificial, subo bem devagar as escadas que são um pouco longas, um silêncio que se instalou aos poucos devido o avançar da noite. Há vegetações em todos os lados da escadaria: Capins Coloniões, Eucaliptos, Malvas, Assa-peixes, Betônicas e umas espécies que eu não conheço, sinto o cheiro do mato. Há dias que faço este trajeto, sozinho, anônimo, mas somente hoje atentei para a claridade do luar, além de com frequência orar durante o trajeto para o trabalho, andando: “Senhor meu Deus agradeço por mais este dia, por tudo que o Senhor me tem proporcionado até aqui; rogo a ti ó Deus que nos guarde em mais este turno de serviço; que nos dê a proteção e nos livre de todos os males; que nos livre dos acidentes, das perseguições, do engano e da mentira; Senhor meu Deus nos dê a luz para que os nossos pés não tropecem, a sabedoria para que nós sejamos justos, guia-me com o teu Espírito Santo; não permita que nós façamos as coisas por nós mesmos, mas que o Senhor seja a inspiração para todas as nossas atitudes; guarde os nossos sentimentos e pensamentos; que nós sigamos somente o bem e abominemos o mal; que nós levemos a paz. Acampem os teus anjos nos nossos setores de patrulhamento e não nos deixe confiar somente nos nossos coletes e nas nossas armas; ó Senhor seja com todos aqueles que estão imbuídos em prestar segurança àqueles que dormem e descansam em paz, guarda meu Deus os nossos lares com aqueles que amamos e queremos bem, porque ficarão sem a nossa presença; não nos deixe injustiçar ninguém, tampouco sofrermos a injustiça alheia, modera-nos, faça-nos prudentes. Senhor sei que sou pecador e imperfeito, mas tenha misericórdia de mim, me perdoa pelas minhas tantas faltas e me justifica, traze-nos de volta aos nossos lares, guardados e protegidos para os nossos e para que os nossos corpos descansem de mais uma noite de empenho, em nome de Jesus Cristo, Teu filho Bendito e Eterno”. Amém! Após as instruções, nos equipamos e descemos para mais uma noite, esperamos pela misericórdia um turno em paz, mas nem sempre acontece, muitas vezes somos expostos, chamados para atendermos variados tipos de delitos, que nos consomem muita energia, afeta o nosso psicológico e fisiológico. Às vezes a noite é longa, ou demasiadamente curta, depende do andar da carruagem: poucos ou muitos chamados, condições físicas e psicológicas. Está raiando a alva do dia, chegando ao final de mais uma jornada, deslocando para o descanso merecido, nos desequipamos, e tornamos para casa. Hora de agradecer a Deus por mais um dia de vitória diante das adversidades, e por ter sido trazido de volta para casa incólume.