SOBRE O TEMPO
Paulo Sérgio Rosseto
Desconfia que algo diferente acontece
Pensa ainda ser moço apesar dos noventa
Consegue flanar sobre o tempo como antes
Apesar de que por tantos modos é verdade
Tem perdido o interesse e a esperança
Desconfia trazer os passos mais lentos
A memoria lerda que nem lembra o que sente
As mãos inábeis e maneiras desconexas
Porções de amor escondidas nas gavetas
A cama imensa onde consigo ninguém deita
Olhos que não mais evitam mostrarem-se aflitos
Aflições que admoestaram e se foram
Mas deixaram o peso preso aos ombros
Arqueados dos reparos e conflitos
Palavras praticamente inaudíveis ao vento
Que ao invés de serem ditas ficam presas no ventre
Se há grito nem ouve e se escuta não chora
Quando chora disfarça a lágrima que rola
Depende de ti que lhe venha ao encontro
Que lhe põe no leito e dele se levante
E abra os braços e entre eles se encontre
Apesar dessa desconfiança
Nada mais lhe espanta nem entedia
O que lhe resta é rir dessa comédia
@psrosseto