Pecado original
Me gostava escrever um poema
todo livre de artifícios,
que ganhasse os orifícios
dos teus olhos, tua boca,
dos ouvidos e nariz;
me gostava compor testemunho
de paisagens cartagenas,
com cor e cheiro de brejo,
de copo-de-leite ou jasmim,
com baile de rãs e de araras
e seis asas de Serafim.
Com dez mil cavalos ciganos
que a outros cantos conduz,
um canto um tanto de espanto,
um inimigo de Franco,
um cão cáustico e andaluz.
Dizer de Sir Walter Raleigh
aventuras de pirata,
pra maior glória de deus
e a Rainha Gloriana,
navegar o Caroni,
varar geologias adentro
até toparmos Manoa
esplendendo das Guianas.
Um relato tão real,
tão terráqueo e verdadeiro,
que para afundar o teu pé
naquele seu solo macio
bastava só que lesses
meu livro por horas a fio;
me gostava dizer odes loucas,
com uns versos meio assim,
avoir le coup de foudre
por serpentes num jardim.
E se escrevesse maçã,
por exemplo, ou por lição,
te pusesse na língua o gosto
da fruta, o cheiro da fruta nas vias
e o cálido e o caldo da fruta nas mãos;
e o poema melava-te a boca
e nunca mais te apetecia
outra qualquer iguaria
que não fosse verso meu;
e era tão bom violar
as regras da criação,
que acabávamos banidos
brandindo brados bandidos
rumo a rubros arrebóis;
expulsos do Paraíso,
mas luzentes como dois sóis.
_____
*Poema presente no livro "Linguamundo", (Partesã, 2019).
Comentários (2)
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Giovanna
2022-01-17
Que lindo ??????
Mariana
2022-01-16
Um poema incrível escrito por uma pessoa incrível! Sucesso sempre!
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