Da frigideira para o fogo

Uma quina desnorteada sob o céu da América, 
Uma esquina do barulho, dança, confusão, 
Sentimentos, profusão, ânsia de destruição. 
 
A moral estabelecida, contra o coração, 
A personalidade ė um eu de capacete, 
Vidros espelhados, opacidade total. 
 
No calor da esquina os corpos desnudos
Faziam rir e suspirar, chorar, sair a acelerar 
Pneus a cantar no asfalto derretido 
O amargo de um problema garantido. 
 
As luzes da cidade, a troca no redline,
O roncar forte do V6 rampante 
A escolha do morro, aí que eu morro. 
E não havia hoje maior felicidade
Se tivesse morrido ali, naquela verdade. 
 
Nunca se enganara com o idiota, 
Saltou da cova para uma lixeira, 
No espelho, uma boca brejeira.
A presciência de uma estrada a afunilar, 
Num quelho com cheiro de merda de gato
Lá pra frente uma poça de mijo no canto. 
E o olhar ausente de quem sente
Que a espera é ainda longa afinal. 
 
Infortúnio sem escrutínio, 
E sem um doce lamento
Sem um crack no final 
E o estoirar do osso. 
Mais como esperar imóvel, 
Gélido fundo de poço, 
Uma tampa a raspar,
Uma nesga de luz, 
A última ânsia sem nada a sonhar. 
 
Nunca sentira falta de comodidades 
Nem se pendurara por amenidades. 
Alívio calmo, morna alegria, 
A sensação de um dia bem passado, 
Quina vermelha num poço selado. 
Um sorriso sadio num corpo finado.
 
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