Quantos portões me separam do mundo?
Um grande portão de madeira, separa minha casa, da rua.
Eu mesmo o fiz, serrando as madeiras, lixando, parafusando, envernizando...
Está lá fazem anos, cumprindo seu papel de proteger minha morada.
Mas, quantos portões me separam da vida?
O portão do medo. Trancas e cadeados!
Ele que me separa de tudo que me é desconhecido.
Novas pessoas, novos lugares, novos costumes. Até mesmo, das novas verdades.
Dificilmente, eu o abro. Às vezes, apenas o entreabro, e volto a fecha-lo, rapidamente.
É como se abusasse da curiosidade em saber o que estou perdendo quando não saio por ele.
Se não encarar os meus medos, saindo por este portão e fechando o cadeado,
jamais saberei o que poderia ter sido, o que poderia ter conhecido, o quanto poderia estar diferente. Mas, e se eu encontrar com o medo, lá fora?
Também mantenho fechado, o portão das lembranças.
É uma forma de garantir que más lembranças não venham fazer parte da minha vida.
E que as boas lembranças não me deixem.
E elas ficam lá, na minha mesa, no meu quarto, na sala de estar...
Estão sempre comigo.
Perdi as chaves do portão da saudade...
Ele fica sempre aberto. Por isso, às vezes ela entra e fica um tempo comigo. Por vezes é simpática, já em outras...
Mas cada um convive com as saudades que construiu, não é mesmo?
Tenho aprendido a conviver com minhas saudades. Fazem parte de mim, afinal.
O portão das verdades...
Ah! Esse portão vive emperrando. Tenho que constantemente lubrificar suas dobradiças.
Não podemos deixar que nossas verdade se acumulem, de forma a prejudicarem nossos espaços.
De vez em quando, preciso abrir esse portão rapidamente e por para fora, tudo aquilo que me incomoda. Quando o portão emperra, a angústia aumenta. Por isso, ele precisa estar sempre em ordem. Precisou, abriu! E lá se vão minhas verdades para se debaterem com o mundo. Algumas sobrevivem. Às vezes...
O portão da esperança!
É o mais bonito, com certeza.
Do outro lado, é sempre primavera. Os dias são de muito sol, a paisagem é um campo sempre coberto de flores...Sempre saio por ele e fico por lá um tempo.
Tem uma árvore, que chamo de poesia. É uma espécie de confidente e não é loucura, não. Ela me ouve... E não me julga. Para ela conto minha vida, meus desejos, meus sonhos, minha forma de ver o mundo e de sentir o que as outras pessoas sentem.
Há tempos, fiz um balanço em um dos seus galhos e fico lá, me embalando na poesia e me confortando do mundo. Todos deveriam ter um balanço igual a este. Todos deveriam ter um grande portão chamado esperança.
O portão dos anos que passam.
A cada ano, ele fica mais convidativo.
A cada ano, dou um passo a mais em sua direção.
Sei que um dia, sairei por ele, e não voltarei mais.
Deixarei não só a minha casa, como as pessoas, as lembranças, as saudades, as verdades e o medo.
Só levarei comigo, a esperança. A poesia, ficará para quem quiser balançar-se e sentir a brisa no rosto.
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