Ferida Limpa
Estar morto sem limpar a ferida seria, de fato, muito pior
O gato olha o pombo, olhos atravessados e estáticos
Há hábitos tão antigos quanto a vida
A religião e a heresia
A fidelidade e a bigamia,
O amor de um, os de dois, os de muitos
As crianças fazem fotos dos casais, as esposas atentas se desviam dos beijos
Em algum tempo os amantes haverão de voltar e se amarem mais vezes
Hoje os pombos comem arroz e os gatos passam fome,
A fome dos ingratos tingindo muros, quintais e igrejas,
As sonoridades de alguns nomes passeiam no parque em dia de sol
Alguns anjos deixam o pombal
Os amimais no cio zombam dos homens
Há muitas mulheres da minha infância nas minhas lembranças
As que cuidaram, as que tinham fome, gulas maiores que a pança,
Outras fomes maiores, as que desciam abaixo do nível dos olhos
Que por vezes gozaram outras sangraram
Sou arredio a deixar os poemas sem finais
Não há normalidades nos dias de finados
Falo coisas estranhas, mas nada eu estranho
Há dias em que tudo parece que finda,
Mas estes dias são dias comuns
Charles Burck
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