UM LEVE DESPERTAR

Mesmo antes de abrir os olhos ainda na cama, ouvi seu assobio. Inconfundível. Tentava ele, a todo custo, imitar os pássaros que ziguezagueavam serelepes pelos pés de laranja pertinho da janela do quarto, piando todas as felicidades possíveis dos primeiros raios do sol.
         E ficava naquela sucessão de silvos breves e longos, longos e intercalados, achando que estava sendo ouvido e mais que isso, compreendido e correspondido, interagindo como fazemos nós hoje nas mídias sociais, certamente imaginando-se em uma fazenda do interior paulista ou no topo de uma serra azulada repleta da fria neblina do lago nos meados de um mês de Abril.
         A princípio eu achava engraçado, depois, com o passar dos dias, essa singela graça tornara-se um pensamento interessante. Quase um século de vida para acabar assim, imitando passarinhos!
         Mas era o que se podia fazer. Nunca aprendeu a voar obviamente – coisa de nós, humanos, e com os passos agora atravancados e lerdos e os movimentos todos já bastante parcos, sobrava-lhe encher os pulmões dos frescos ares da matina e chilrear intensamente junto às aves.
         Todo aquele piado de sabiás e pardais somava-se à felicidade dele. Sim, o significado daquela barulheira nada mais seria senão o insigne sinal e a mais sublime forma de dizer: acordei feliz! Que mais importa ao mundo senão isso? Despertar assim é para poucos, afinal há quem nem se levante da cama, quem a muito custo mal abre os olhos, quem desperte sob  severos xingamentos, e quem apenas desperta insalubre como um pedaço de cana plantada na beirada do mar.
          Porem, hoje entendo que meu pai e os passarinhos tem muito em comum: são de livre pensar e donos do próprio mundo, inteligível para um poeta de boca torda que nunca nem mesmo soube assoviar.
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