SOMENTE UM PASSO
Já cansada de toda essa luta em vão, a velha jovem senhorita caminhou de olhos vendados, segura de estar no caminho certo. Subiu até o ponto mais alto e esperou que as nuvens negras passassem.
Como pássaros, elas iam e voltavem, fazendo malabarismos celestiais ao redor daquela figura mirrada, mal compreendida pela ignrância.
Sentiu seus cabelos baterem contra aquele vento amargo, indo de encontro com as coisas que já tinha visto, com o passado.
Em voz alta, começou a vomitar todos os seus sonhos, que fediam e se espalhavam na terra molhada pelas suas lágrimas.
Quanta saudade de um dia em que foi humana! Saudade da personalidade que o tempo levou e deixou perdido na lembrança de alguém, talvez.
Lembrou-se de pessoas especiais que cruzaram seu caminho. Gente que a fez sorrir, que a deixou ansiosa, feliz e a fez chorar, mostrando a verdadeira face da realidade sombria que persegue cada ponto móvel, insignificante, chamado homem.
Perdida em suas lembranças, sentiu o vento em seu rosto mais uma vez.
Um suspiro a fez sentir viva. Percebeu que já estava terminando.
Então, tirou o pano que tapava seus sonhadores olhos castanhos. Olhou para o outro lado daquele abismo e viu as rochas enormes sugadas pela selvageria da água doce que alimenta e mata.
Com toda a coragem e, talvez, satisfação, deu um simples e delicado passo em direção do, talvez (novamente), eterno final.
As nuvens negras choraram, despencando toda a tristeza em forma de gotas, manchando e marcando aquele momento.
O vento soprou com mais força.
O sol se escondeu atrás de nuvens, não querendo testemunhar aquele fúnebre episódio.
As garças, habitantes do local, voaram em bando, à procura de abrigo seguro, fugindo da ânsia de destruição daquela tarde.
A natureza entristeceu e descarregou suas forças por meio de raios ferozes.
Enquanto esse espetáculo se mostrava, ela caia levemente, por deixar seus pecados no passado.
Encontrou-se com seu destino e, já inanimada, era simplesmente carregada por aquele rio. Era mais uma flor que enfeitava aquelas águas silenciosas.
Dessa forma a cortina se fechou e essa cena terminou na calmaria do equilíbrio das coisas vivas ao redor de um cadáver.
Então, tudo calou-se para sempre, caíndo no esquecimento de pessoas que estão sempre a procura de novidades.
ANO: 1999
ANO: 1999
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