REPRIMIDO
Às vezes eu invento, de improviso,
Um só rascunho simples, impreciso,
E risco neste rosto o vão sorriso.
Na noite destas névoas agonizo!
Aqui num triste canto não escondo
Que trago nas entranhas este estrondo
E pisa-me o tropel que estou expondo!
Dizia ser deserto e tão sozinho
Vivia sem sorver do doce vinho.
Num fosso meu sem fundo já definho:
Eu pus em vão no peito o velho espinho.
Eu caio numa cova e já me escolta
O vulto que se veste da revolta
Que a sua boca suja nunca solta!
Que diga neste dia o que foi dito
Apenas bem depois do que repito,
Sem grandes alegrias, pelo grito
De medo, raiva e mágoa que eu emito.
Sou quem se cala e quase fui quem canta.
Angústia não se esgota na garganta:
A estúpida tristeza já é tanta!
O breu da vã lembrança que me abraça
É grosso nas agruras da desgraça!
No coração escuro seja escassa
A nova luz e nele o sol não nasça!
Agora no desgosto que degusto,
Eu quero ter de arcar com todo o custo
De agir aqui do jeito casto e justo!
Os golpes não aguento nesta guerra:
Embora não combata, sou quem berra.
Estou bem sepultado nesta terra
E sangro mas o sangue não se encerra.
Na gruta de segredos eu regrido
Aos lânguidos silêncios em que lido
Com mãos que reprimiram o gemido.
(Autor: EDEN SANTOS OLIVEIRA. Escrito em 05/03/2020)
Um só rascunho simples, impreciso,
E risco neste rosto o vão sorriso.
Na noite destas névoas agonizo!
Aqui num triste canto não escondo
Que trago nas entranhas este estrondo
E pisa-me o tropel que estou expondo!
Dizia ser deserto e tão sozinho
Vivia sem sorver do doce vinho.
Num fosso meu sem fundo já definho:
Eu pus em vão no peito o velho espinho.
Eu caio numa cova e já me escolta
O vulto que se veste da revolta
Que a sua boca suja nunca solta!
Que diga neste dia o que foi dito
Apenas bem depois do que repito,
Sem grandes alegrias, pelo grito
De medo, raiva e mágoa que eu emito.
Sou quem se cala e quase fui quem canta.
Angústia não se esgota na garganta:
A estúpida tristeza já é tanta!
O breu da vã lembrança que me abraça
É grosso nas agruras da desgraça!
No coração escuro seja escassa
A nova luz e nele o sol não nasça!
Agora no desgosto que degusto,
Eu quero ter de arcar com todo o custo
De agir aqui do jeito casto e justo!
Os golpes não aguento nesta guerra:
Embora não combata, sou quem berra.
Estou bem sepultado nesta terra
E sangro mas o sangue não se encerra.
Na gruta de segredos eu regrido
Aos lânguidos silêncios em que lido
Com mãos que reprimiram o gemido.
(Autor: EDEN SANTOS OLIVEIRA. Escrito em 05/03/2020)
Comentários (1)
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Ingrid oliveira
2020-03-06
Belíssimo poema. Digno de quem você representa. E mais uma vez surpreendendo seus leitores.
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